Capítulo 6 do Livro “Pornografia: Homens Possuindo Mulheres” de Andrea Dworkin

Escrito por: Andrea Dworkin
Traduzido por: Carol Correia

Demais capítulos se encontram em:

Introdução. Capítulo 1. Capítulo 2. Capítulo 3. Capítulo 4. Capítulo 5. Capítulo 6. Capítulo 7.

6. Pornografia

“Considere também nossos espíritos que quebram um pouco cada vez que nos vemos em correntes ou em exposição labial completa para o espectador masculino, ferida ou de joelhos, gritando uma dor real ou fingindo para encantar o sádico, fingindo apreciar o que nós não desfrutamos, ser cega às imagens de nossas irmãs que realmente nos assombram — acostumadas a serem humilhadas por si mesmas, pela obscena ideia de que o sexo e a dominação das mulheres devem ser combinados.”
Gloria Steinem, Exotica and Pornography (Exótico e pornografia)
“De alguma forma, todas as indignidades que as mulheres sofrem em última análise, vem a ser simbolizada em uma sexualidade que é detida para ser sua responsabilidade, sua vergonha. Mesmo a auto depreciação exigida da prostituta é uma emoção estimulada para todas mulheres, mas raramente com muito sucesso: não tão francas, não tão abertamente, não tão eficientemente. Pode ser resumida em uma palavra de quatro letras. E a palavra não é fuder, é vadia. Nosso auto desprezo se origina nisto: em saber que somos vadias. Isto é o que é nós deveríamos ser — a nossa essência, nosso crime.”
Kate Millett, The Prostitution Papers (Papéis da prostituição)
“Eu nunca consigo preencher minha cota de matar putas.”
Euripides’ Orestes, em Orestes

A palavra pornografia, do grego antigo porne e graphos, que significa “escrever sobre prostitutas.” Porne significa “prostituta”, específica e exclusivamente a classe mais baixa de prostitutas, que na Grécia antiga era a puta do bordel, disponível para todos os cidadãos do sexo masculino. O porne era a mais barato (no sentido literal), menos considerada, menos protegidas de todas as mulheres, incluindo escravas. Ela era, simplesmente, de forma clara e absoluta, uma escrava sexual. Graphos significa “escrita, gravura ou desenho.”

A palavra pornografia não significa “escrever sobre sexo” ou “representações do erótico” ou “representações de atos sexuais” ou “representações de corpos nus” ou “representações sexuais” ou a qualquer outro eufemismo. Significa a representação gráfica das mulheres como prostitutas vis. Na Grécia Antiga, nem todas as prostitutas eram consideradas vis: apenas a pormeia.

A pornografia contemporânea estritamente e literalmente está de acordo com significado da raiz da palavra: a representação gráfica de prostitutas vis, ou, na nossa língua, vagabundas, vacas (como em: gado sexuais, bens sexuais), vadias. A palavra não mudou o seu sentido e o gênero não está errado. A única mudança no significado da palavra é em relação à sua segunda parte, graphos: agora há câmeras — ainda há fotografia, cinema, vídeo. Os métodos de representação gráfica têm aumentado em número e em espécie: o conteúdo é o mesmo; o significado é o mesmo; o objetivo é o mesmo; o estado das mulheres representadas é o mesmo; a sexualidade das mulheres representadas é o mesmo; o valor das mulheres representadas é o mesmo. Com os métodos tecnologicamente avançados de representação gráfica, as mulheres reais são exigidas para a representação enquanto tais para existir.

A palavra pornografia não tem qualquer outro significado que os aqui citados, a representação gráfica das prostitutas mais baixas. Prostitutas existem para servir sexualmente a homens. Prostitutas existem apenas dentro de um quadro de dominação sexual masculina. Na verdade, fora deste quadro, a noção de prostituta seria absurda e o uso de mulheres como prostitutas é incompreensível, salvo quando imerso no léxico da dominação masculina. Homens criaram o grupo, o tipo, o conceito, o epíteto, o insulto, a indústria, a mercantilização, o comércio, a realidade da mulher como prostituta. Mulheres como prostitutas existem com o sistema objetivo e real da dominação masculina sexual. A pornografia em se é objetiva, real e central ao sistema sexual masculino. A valorização da sexualidade das mulheres na pornografia é objetiva e real, porque as mulheres são tão respeitadas e tão valorizadas. A força representada na pornografia é objetiva e real, porque a força é tão usada contra as mulheres. A degradação de mulheres representadas na pornografia e intrínseco ao seu objetivo e sua realidade, em que as mulheres são degradadas. Os efeitos do uso de mulheres representadas na pornografia são objetivos e reais, porque mulheres são usadas. As mulheres usadas na pornografia são usadas na pornografia. A definição das mulheres articuladas sistematicamente e consistentemente na pornografia é objetiva e real em que existem mulheres reais dentro e devem viver com referência constante aos limites desta definição. O fato de que a pornografia é amplamente acreditada para ser “representações sexuais” ou “representações de sexo” enfatiza apenas que a avaliação das mulheres como prostitutas baixas é generalizada; e que a sexualidade das mulheres é percebida como baixa e indecente em si. O fato de que a pornografia é amplamente acreditada para ser “representações do erótico” significa apenas que a degradação da mulher é considerada o verdadeiro prazer do sexo. Como Kate Millett escreveu, a sexualidade das mulheres é reduzida para o essencial: “bucetas… nossa essência, nosso crime.”[1] A ideia de que a pornografia é “suja” tem origem da convicção de que a sexualidade de mulheres é suja e que está realmente sendo retratada na pornografia; que os corpos das mulheres (em especial a genitália feminina) são sujas e libidinosas em si mesmos. A pornografia não, como alguns afirmam, refuta a ideia de que a sexualidade feminina é suja: em vez disso, pornografia incorpora e explora esta ideia; a pornografia vende e a promove.

Nos Estados Unidos, a indústria da pornografia é maior do que as indústrias fonográfica e cinematográfica combinadas. Em um momento de empobrecimento econômico generalizado, a pornografia está crescendo: mais e mais consumidores masculinos estão ansiosos para gastar mais e mais dinheiro em pornografia — em representações de mulheres como prostitutas vis. Pornografia é agora apresentada por televisão por cabo; que agora está sendo comercializado para uso doméstico em vídeos. A tecnologia em si exige a criação de mais e mais porneia para atender o mercado aberto pela tecnologia. As mulheres reais são amarradas, esticadas, enforcadas, fodidas, passam por gang-bang, chicoteadas, espancadas e estão implorando por mais. Nas fotografias e filmes, as mulheres reais são usadas como porneia e mulheres reais são descritas como porneia. Para lucrar, os cafetões devem fornecer a porneia enquanto a tecnologia amplia o mercado para o consumo visual de mulheres que estão sendo brutalizadas e amando isso. Uma imagem vale mais que mil palavras. O número de imagens necessárias para satisfazer as demandas do mercado determina o número de porneia necessária para atender às demandas de representação gráfica. Os números crescem enquanto a tecnologia e sua acessibilidade cresce. A tecnologia por sua própria natureza incentiva mais e mais submissão às representações gráficas. A passividade faz com que o consumidor já crédulo mais crédulo. Ele vem a pornografia como um crente; ele sai como um missionário. A tecnologia em si legitima o uso de mulheres transmitidas por ele.

No sistema masculino, mulheres são sexo; sexo é a prostituta. A prostituta é porne, a mais baixa das prostitutas, a prostituta que pertence a todos os cidadãos masculinos: a vadia, a buceta. Compra-la é comprar pornografia. Tê-la é consumir pornografia. Vê-la é ver pornografia. Ver o sexo dela, especialmente suas genitais, é ver pornografia. Vê-la no sexo é ver a prostituta no sexo. Usa-la é usar pornografia. Querer ela significa querer pornografia. Ser ela significa ser pornografia.

[1] Kate Millett, Tbe Prostitution Papers (New York: Avon Books, 1973), p. 95.

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