Prefácio de “Teoria feminista: da margem ao centro” por bell hooks

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Estar na margem é fazer parte do todo, mas fora do corpo principal. Como americanos negros morando em uma pequena cidade do Kentucky, os trilhos da ferrovia eram um lembrete diário de nossa marginalidade. Ao longo desses trilhos havia ruas pavimentadas, lojas em que não podíamos entrar, restaurantes em que não podíamos comer e pessoas que não conseguíamos olhar diretamente na cara. Entre esses rastros havia um mundo em que poderíamos trabalhar como empregadas domésticas, como zeladores, prostitutas, desde que estivessem na capacidade do serviço. Nós poderíamos entrar nesse mundo, mas não poderíamos morar lá. Sempre precisávamos voltar para a margem, para atravessar os trilhos, para barracos e casas abandonadas na periferia da cidade.

Havia leis para garantir nosso retorno. Não voltar era arriscar ser punido. Vivendo como vivíamos — no limite — nós desenvolvemos uma maneira particular de ver a realidade. Nós olhamos tanto de fora quanto de dentro para fora. Concentramos nossa atenção no centro e também na margem. Nós entendemos os dois. Este modo de ver nos lembrou da existência de um universo inteiro, um corpo principal composto de margem e centro. Nossa sobrevivência dependia de uma conscientização pública contínua da separação entre margem e centro e um reconhecimento privado contínuo de que éramos uma parte necessária e vital daquele todo.

Essa sensação de completude, impressa em nossa consciência pela estrutura de nossas vidas diárias, nos proporcionou uma visão de mundo oposicionista — um modo de ver desconhecido para a maioria de nossos opressores, que nos sustentou, nos ajudou em nossa luta para transcender a pobreza e o desespero fortaleceu nosso senso de identidade e nossa solidariedade.

A disposição para explorar todas as possibilidades caracterizou minha perspectiva ao escrever Teoria Feminista: da margem para centro. Muita teoria feminista emerge de mulheres privilegiadas que vivem no centro, cujas perspectivas sobre a realidade raramente incluem o conhecimento e a conscientização da vida de mulheres e homens que vivem na margem. Como consequência, a teoria feminista carece de totalidade, carece da ampla análise que poderia abranger uma variedade de experiências humanas. Embora as teorias feministas estejam cientes da necessidade de desenvolver ideias e análises que abranjam um número maior de experiências, que sirvam para unificar em vez de polarizar, tal teoria é complexa e lenta na formação. Em sua forma mais visionária, emergirá de indivíduos que tenham conhecimento de margem e centro.

Foi a escassez de material por e sobre as mulheres negras que me levou a iniciar a pesquisa e a escrita de Não sou eu uma mulher: mulheres negras e feminismo. É a ausência da teoria feminista que aborda margem e centro que me levou a escrever este livro.

Nas páginas seguintes, exploro as limitações de vários aspectos da teoria e prática feministas, propondo novas direções. Eu tento evitar a repetição de ideias que são amplamente conhecidas e discutidas, concentrando-se em explorar diferentes questões ou novas perspectivas sobre questões antigas. Como consequência, alguns capítulos são longos e outros muito curtos; nenhum pretende ser uma análise abrangente. Ao longo do trabalho, meus pensamentos foram moldados pela convicção de que o feminismo deve se tornar um movimento político baseado na massa para ter um impacto transformador e revolucionário na sociedade.


Capítulo 1 já se encontra traduzido pela Revista Brasileira de Ciência Política.