Úteros e senso de humor

Calendário do advento — 03/12: Sarah Scribbles

De traços simples, Sarah Scribbles é um webcomic produzido por Sarah Andersen, uma ilustradora norte-americana. Nele, ela relata pequenos momentos de seu cotidiano: conversas com o namorado, sua paixão por gatos, suas (muitas) angústias, suas inseguranças e seu terrível ciclo menstrual.

A área dos quadrinhos, como tantas outras, nunca foi acolhedora com mulheres, assim como o humor. Questões masculinas são tidas como universais enquanto questões femininas são tidas como apenas isso: questões femininas. Talvez por isso tantos homens encham a boca para falar que “mulheres não são engraçadas”. Pois Sarah Andersen é prova de que sim, somos muito engraçadas.

Exemplo 1.

Esses homens não parecem entender que o problema não é a falta coletiva de humor por parte das mulheres e sim que eles não têm os referenciais necessários para entender nossas piadas.

Além disso, homens não são ensinados a rir educada e desconfortavelmente de piadas que são ofensivas ou simplesmente sem graça. Nós mulheres somos. Nem sempre achamos aquela piada sobre ereção no ônibus divertida porque o que é um leve embaraço para o homem, evoca assédio para a mulher. Referenciais.

Não achamos graça mas sorrimos incomodadas mesmo assim.

Muito do humor masculino gira em torno de pintos. É raro encontrar um humorista que não faça múltiplas referências ao seu membro e não tem nada de muito errado nisso.

Apesar de não ter um pênis, conheço o funcionamento deles, as mazelas de ter uma ereção involuntária, o desconforto cômico de fazer xixi em mictórios públicos. Eu sei essas coisas porque ouvi piadinhas a respeito disso minha vida inteira. Em contrapartida, só recentemente eu comecei a ouvir e fazer piadas sobre menstruação, útero, absorventes internos e afins. Nós mulheres estamos perdendo a vergonha de falar e rir abertamente sobre essas coisas. Os homens, não.

A reação costumeira de rapazes às palavras “vagina”, “útero”, “menstruação” é um misto de nojo, ignorância e desinteresse. Esses tópicos são “de mulher”, portanto desconfortáveis e/ou não dignos de atenção. E rapazes não são ensinados desde pequenos a fingir interesse e esconder desconforto, então ao invés de aprender algo e reconhecer que nem tudo gira em torno de seus pintos, taxam mulheres de “sem graça”.

Somos muito engraçadas, sim senhores.

A falta de reconhecimento de comediantes mulheres é sintoma direto da extrema misoginia na área do humor. Essa misoginia não se restringe ao grupo dos homens heterossexuais. Uma piada muito comum entre homens gays é “eu tenho tanto nojo de buceta que nasci de cesárea”. No que diz respeito a humor masculino o único lugar para mulheres é como alvo de piadas repletas de ódio.

Em um cenário como esse, fazer sucesso produzindo piadas sobre menstruação é quase um ato político.