
Medo de boneca
Num tempo enevoado, conheci uma garota que se chamava Pandora. Seus pais, muito simples e pobres, aceitaram a sugestão dos patrões debochados nomeando a menina, ainda na barriga.
Assim nasceu Pandora, linda, morena, cabelos pretos e que só usava calcinha.
Equívocos mitológicos à parte, aquela garota andava agarrada numa caixa de sapatos onde alegava carregar suas coisas santas. Quando questionada sobre santidade, ela repetia o decorado:
— Não alcanço diferença entre os santos e eu, viu?
Ao nos conhecermos, a garota abriu a caixa e deixou cair uma boneca feia, amarrotada, com traços desbotados e trapos que cheiravam a mofo.
O pai da menina, reconhecendo na boneca poderes sobrenaturais,
pendurou-a em uma árvore no quintal, visível ao muro que nos separava.
Assim começou minha agonia. Aquela boneca parecia ter vida própria. Por onde eu passava, ela me acompanhava apenas com o olhar. A cada passo, a cada gesto meu, os olhos da boneca me seguiam observando-me. Aquilo era um tormento interminável.
Eu pensava que os santos deviam estar muito bravos assim como os fizemos, feios, apenas estátuas com olhos inquisidores. Se aquilo era salvação, o que poderia ser condenação?
A condenação foi minha: criei medo de boneca.
Acontece que estive de olhos bem abertos e ouvidos atentos na barriga da minha mãe. De lá via e ouvia tudo.
Foi então que me lembrei de que aqueles medos não eram meus.
Pronto! Pulei muro, subi árvore e tomei aquela boneca asquerosa. Carreguei-a em meus braços, como se fosse minha filha. E se tivesse um santo ou um demônio ali, que me respondesse, pois meus olhos, que mais julgaram que observaram, deixaram-se enganar.
— Coração meu, salta-me no peito se houver alguém aí.
Não tinha ninguém, não tinha medo, não tinha nada. Peguei a boneca, cavei um buraco, enterrei-a e fui andando. Virei-me, numa última olhada, e vi a planta do ‘amor-perfeito’ brotando naquela cova.
Foi naquele sobrenatural minuto, onde o tempo troca as gavetas de lugar, que a lembrança me esbarrou sussurrando: “Você ouviu dizer que Deus fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo; no terceiro dia ele fez, entre outras coisas, sementes e plantas”.
Se não me engana a memória, chutei alegremente a barriga materna. Afinal, eu regressava de outras aventuras e, de onde eu vinha me ensinaram também que o ‘amor-perfeito’ já existia antes do mundo ser criado.
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