O Menino Caranguejo

Colagem: Nina Grinbaum

Na Beira do mangue, uma mulher arrasta a criança que saiu do seu próprio ventre. Misteriosos partos da pobreza que o mangue ajuda a conceber.

Assim nasceu este menino sem nome e que não tem como saciar sua fome eterna.

O bafo da sua realidade se revelou cedo: a lama dos mangues, atolada de caranguejos e povoada por seres humanos, agindo como caranguejos. Ele parecia um ser anfíbio impregnado com o cheiro de terra podre e de maresia.

Esta história que narro saiu dos lábios, secos e rachados, da mãe do garoto. Quis o destino que fosse ela a única sobrevivente do antigo povoado que existiu perto da imensa lama dos caranguejos. No seu discurso delirante, contando sempre a mesma história, ficou conhecida como a “Senhora de Barro”.

Segundo ela, o menino, arrastava-se para sobreviver, com o olhar parado na beira do mar ou caminhando no mangue para os lados e para trás, como caminham os caranguejos.

Pouco a pouco, o desenho da lama do mangue foi tomando forma no espírito do garoto. Com a desnutrição roçando sua nuca, o menino nunca olhava para trás e se contentava com o lixo que ficava na areia, quando o mar se encolhia para dormir.

Com o passar dos anos, ele encontrou um tira-gosto que enganava sua fome: costumava se perfumar com água de ervas e assistir ao Bumba Meu Boi que acontecia numa casinha desbotada, com uma porta e duas janelas cravadas na parede. Lá dentro, uma luz cor de alegria escondia a falta de tempero. Na verdade, o que ele via era um boi de duas pernas; o mais humano dos bois, balançando num tecido mofado. E, por algumas horas, o menino se tomava de amores por aquele bicho. Ele se encolhia e sumia dentro daquele grande tecido velho e esgarçado que, na verdade, só cobria uma cabeça com grandes chifres balançando como fantasma de boi. Então, ele passava a noite dançando e sonhando. Em delírio, sentia o couro do animal aquecendo-o e a carne do bicho engordando-lhe o esqueleto.

Um dia ele não foi à casinha desbotada e nem dançou como um boi. Sem maiores explicações ele se afundou na lama do mangue e não voltou mais à superfície.

A Senhora de Barro me disse que o menino se transformou num enorme caranguejo que se alimenta de sonhos e pesadelos. Ela contou que o garoto foi ao encontro do destino. E que o destino se revelou na forma de três mulheres.

No universo dos Deuses gregos, o grande caranguejo se casou com elas.

Sua primeira mulher tinha o dom de tecer e fiar. Assim, ela fabricava os fios de um tecido brilhante e vital. A segunda mulher sabia distribuir as dores e os amores, por isso, enrolava o fio e engrossava o novelo. E a terceira, cortava os fios vitais com sua tesoura afiada. Assim nasciam e morriam as histórias e todos os seres do mundo. Enamorado das três, o caranguejo se orgulhava dos fios e tecidos que suas mulheres davam vida e, prestativo, resolveu ajudar a cortá-los também.

A Senhora de Barro me disse que sonhou uma única vez com “seu menino caranguejo”. No sonho, ele dizia que estava bem e que precisou caminhar muito até encontrar a quarta mulher. Essa degustava tudo o que encontrava no caminho.

Era ela… Finalmente se encararam! O amor se apresentou trazendo a realização de um sonho antigo, alinhavando os retalhos de uma história descosida. E quando a moça disse o seu nome, ele não se conteve e a engoliu inteira, sem mastigar.

O grande caranguejo comeu a fome.

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