Autossabotagem (ou a “síndrome do impostor”)

Comecei em um trabalho novo há um mês. E essa é uma experiência que detesto: passar pelo famigerado “período de experiência”. Aqueles três meses iniciais mais angustiantes da vida de um recém-contratado ansioso (como eu).

Pois bem, eis que, navegando pelos usuais blogs de comunicação de que gosto, vejo anunciada uma vaga com o mesmo título para o qual havia mandado currículo anteriormente, e que é minha ocupação atual.

Na hora, quase borrei as calças. Meu coração veio parar na boca, andei para lá e para cá no quarto. Quase fui chorar pros meus pais. Estava em vias de mandar, desesperada, uma mensagem no Whatsapp, às 23:30, para uma colega de trabalho, diretora de arte que trabalha no mesmo núcleo que eu, perguntando se eles estavam a fim de contratar alguém pro meu lugar.

Tentei me acalmar, sentei, comecei a respirar fundo e já prevendo o desemprego. Abri de novo o notebook, reli tudo novamente. E lembrei que eles estavam buscando um(A) ASSISTENTE DE PRODUÇÃO (que se refere a essa vaga postada e que não foi preenchida ou será preenchida em breve). Que vai cuidar da parte burocrática/técnica do trabalho. Contatar agências de modelo, organizar looks, etc.. Não é um designer. Li, reli. E me acalmei aos poucos.

Depois, fui stalkear um colega de trabalho que acho bonito e vi uma vaga postada: Diretor de Arte. Gelei. Eu não sou diretora de arte (no meu registro está designer jr.) e bem antes de eu entrar, já tinha essa vaga que, por ora, não foi preenchida e, ao que me parece, foi reaberta.

Isso tudo me causou um stress desnecessário, fruto dos meus medos costumeiros (e que carrego há anos). Em plena noite de sábado. Mas como faço terapia há anos, consegui retomar o meu estado normal (lê-se: não ansioso) e fui dormir porque notei que me martirizar não levaria a lugar algum.

Essa insegurança generalizada me faz um mal danado. Até agora, tentei não ficar demonstrando isso para não prejudicar meu lado profissional lá na agência.

Engraçado, pelo contrário, meu trabalho não tem sido criticado; até já ganhei uma corrente da chefe, tenho diálogo aberto com ela e tenho recebido feedback positivo, desde então, e elogios. Compareci aos ensaios fotográficos, tomo iniciativa, até já trabalhei por horas a fio a mais.

Eu topei, concordei seguir essa jornada. Doei-me inteiramente a esse novo projeto e tenho feito o trabalho com muito amor e empenho.

Então, por que tantas dúvidas, insegurança e a famigerada síndrome do impostor?

Porque, desde a infância, além da cobrança dos pais, cobrava-me, também, intensamente, a perfeição ou estar próximo a isso. Jamais admitia errar. Mas quando o fazia, gostava de admitir sozinha que isso se devia a mim somente. Detestaria se outros colegas levassem a culpa por algo que EU tinha feito errado.

Isso ocorria no colégio, na faculdade e acabou se estendendo à vida profissional também. Essa insegurança, a cobrança, o medo de errar e descobrirem que eu era uma fraude. Além de nunca, jamais, aceitar com bons olhos elogios que eram tecidos a mim. Sempre encarava-os com desconfiança e, em seguida, desdém, achando que as pessoas só o faziam por “dó” de meu desempenho pífio/medíocre.

Já mencionei inúmeras vezes na terapia o quanto me sinto “indigna” (dessa forma mesmo) de determinadas coisas. A psicóloga se choca toda vez que toco no assunto. Explico para ela sobre essa cobrança, esse medo inerente de cometer uma burrada e ser taxada de incompetente pelos resto de meus dias.

Talvez por isso eu postergue tantas coisas. Dar continuidade FIRME aos estudos de front-end a fim de me tornar desenvolvedora web (sonho que quero tanto atingir!). Levar uma vida de menos exageros alimentares (a ansiedade e o descontentamento com minha vida profissional/pessoal me levam a comer absurdamente e pensar que as coisas não têm saída). Fugir de relacionamentos com medo de me machucar e entrar em roubadas. Olhar-me no espelho e ter orgulho do que vejo. Sentir-me capacitada para encarar quaisquer desafios que apareçam em minha carreira.

São tantas coisas! É tão difícil olhar meu reflexo no espelho e ser benevolente comigo mesma. Enxergar qualidades, por mais que outras pessoas, inclusive a terapeuta,meus pais e amigos, afirmem e reafirmem isso.

E olha que já fui muito, mas muito pior! Cobrava muito mais de mim, sentia-me chafurdando na lama, indigna de ser feliz e ter uma vida como qualquer ser humano. Chorava horrores e tinha medo dos desafios da vida profissional.

Achava que não tinha sido feita para conviver em sociedade (nessa sociedade capitalista e competitiva) e que jamais conseguiria sobreviver ao mundo corporativo (isso inclui o da comunicação e das agências de publicidade também).

Via vários ex-colegas de faculdade, jornalistas, tendo sucesso, já com cargos de liderança e pós-graduação em Londres, dando-se muito bem. Seja em multinacionais ou até mesmo em renomadas editoras, como a Abril. Enquanto eu….

Enfim, sigo descobrindo-me, tentando, pouco a pouco, ser menos rígida. Vou flexibilizando as cobranças ou direcionando isso a outras atividades mais produtivas como, por exemplo, escrever esse texto para ver se consigo compreender melhor minha personalidade tão durona. Mas não com o mundo, e sim comigo mesma.