o bom leviatã

quase esboça um sorriso

tenho sentimento
de saberem de tudo
e eu
nada

tudo tão próprio

talentos intangíveis nunca adquiridos
se refletem nos olhos já feridos
a jornada fracassada do conhecimento
diluído na própria farsa da informação

muita fala, pouca ação
tudo vira produto, extrema-unção
de uma cidade agonizante 
com nenhuma ou pouca pretensão

risos nervosos
sorrisos calculadamente voluptuosos
transmitem o vazio de uma boca que fala
sem ouvir, quem não pode se cala

afinal, fala quem pode 
obedece quem tem juízo 
num lugar que nasce pra poucos o paraíso


acho que alguma coisa eu sei:
em terra de um só rei
a forca é pra geral

incessante, sem ter nem pra quem rezar
a esperança se esvai 
a corda é amarrada na cabeceira da cama
e dizemos adeus pra quem nos ama

otário!
quem mandou ter nascido
em um mundo que nem sequer é ouvido?

era melhor cê ter fugido
pro celeste-submundo
onde pobre não é inimigo

não desejo circo
mas o pão é necessário
afinal, fácil é criticar quando
se nasce no áureo berçário

uns nascem com sorte
a maioria com azar
não cuido do monstro criado
isso é trabalho pros desalmados

desarmados, amarrados
amordaçados e azarados
não me responsabilizo com o acaso
nem quando eu mesmo faço

não me importo se passas frio
nem quando sopro a corrente mais gélida
não me importo se passas fome
porém, abrilhanto-me os olhos
com o suor incessante de vossos homens

o leite derramado das amas de leite,
gotejante por séculos em alvos céfalos, 
nem um pingo aos desafortunados!
deixei estes a sua própria sorte

mas d'onde vem tal sorte?
da bússola que só aponta pro seu Norte?
usurpada em teu próprio ninho 
espero resguardar, em desalinho 
tudo que lhe resta

resta a nós não aguardarmos o próximo passo 
buscar no passo alheio nosso tempo
em seus prantos, o meu próprio alento
escutar o canto feroz que o atrito sussurra em meus ouvidos


pois bem, minha cabeça gira
esforço-me, mas a viagem não termina
pulo em cada consciência
experimentando quase sempre incertezas
das quais já tinha conhecido

ora, ora
me encontro vivendo em outras mentes
e os ruídos ainda ressoam na minha

espero que o leviatã bondoso,
o qual respira e se alimenta de povo,
padeça sem demora
e leve consigo seu rastro assombroso

a única sombra reluzente 
será a de nossas mentes
pensando, agora sem a interferência,
desse ser, fruto de minha incompetência
de nos enxergar

e cuidado
não alimente a fera


agradeço ao Victor Correia por ter me conduzido ao título do texto. obrigado, amigão