meu ano sem querer sabático.

Sabe aqueles últimos 10 minutos do dia 31 de dezembro que você passa fazendo uma retrospectiva relâmpago do que viveu nos últimos 365 dias estabelecendo pactos mentais para mudar várias coisas e começar muitas outras? Multiplique esse sentimento por 365 e pronto: o que você vai sentir em um ano sábatico é mais ou menos isso.

(acabei de perceber que fiz a conta errada, mas desaprender uma série de coisas também faz parte desse tipo de ano).

Sempre tive a ideia de que essa história de ano sabático era tática de gente famosa querendo virar matéria da Caras, ou de pessoas mega bem-sucedidas que já fizeram de tudo na vida e cansaram (mas depois também acabaram virando matéria da Caras ou tema de bestseller).

(por sorte - ou não - não sou nenhum dos dois) mas tive esse último ano como sabático. Tive aqui querendo dizer que não foi algo planejado. Não era meu objetivo. Achava que, com um pouco de grana, isso até poderia rolar, lá pelos meus 40 e poucos anos, quem sabe. Mas de 2015 pra cá, quando chegou no décimo-primeiro mês nessa contagem, me dei conta de que 'uou, acabei de ter um ano sabático'.

Mas, afinal, como eu tenho tanta certeza disso?

Não fui CLT. Não tive grandes obrigações. Não fui em busca de trabalho. Não tive aquela rotina neurótica de segunda a sexta com horários totalmente definidos. Também não me cataloguei como uma 'trabalhadora freela' pingando de lugar em lugar.

Sim, fiz alguns freelas pra sobreviver, com o mínimo possível. Mas, basicamente (e de acordo com os resultados que o Google acabou de me presentear quando procurei uma definição para o termo) eu dei tempo para me descobrir, para experimentar, para (tentar) viver fora do modo automático.

E por mais testemunhal motivacional-Você-S.A-sou-uma-pessoa-sem-problemas que isso soe, é a mais pura verdade. Ter um ano sabático é mais do que não trabalhar. É aprender a viver no seu próprio ritmo. E, se você não sabe qual é, descobri-lo na marra. E vou te dizer: é difícil pra caramba quebrar uma rotina e acabar com ela, por mais caótica que ela fosse. Andar sem ter de olhar para o relógio e se preocupar com compromissos pode parecer libertador, mas é um pouco assustador. Olhar pra sua agenda (sim, por hábito eu precisei comprar uma, mesmo sem ter com o que preencher) vazia também pode virar uma bela angústia para quem sempre foi acostumado a andar a mil.

Só que aí tem o caminho.

Ah, o caminho. Literalmente, aquele que você anda. Porque andar por aí reexplorando sua cidade é uma das coisas que você mais vai fazer num ano sabático. Com a diferença de que agora você começa a reparar no caminho, ganha tempo 'para perder' respondendo pessoas desconhecidas na rua, puxar papo furado com elas, reparar nos outros, começa a olhar para o caminho de um jeito que nunca viu antes, aprende a percorrer distâncias em velocidade reduzida para contemplar o que está à sua volta.

Aliás, eu tenho o costume de resumir meu ano em uma palavra. E a desse é contemplar. E contemplar aqui não no sentido de bater palma pro pôr do sol (ou talvez até sim). Mas de estar presente de verdade nas coisas. Contemplar gente, situações, sentimentos. E é em todo esse movimento de contemplar que você entra naquela vibe do dia 31 de dezembro basicamente todo dia.

Não dá pra escolher. No ano sabático você vira sua maior companhia. E de tanto ter tempo para encarar você de frente sem nenhum compromisso ou falta de tempo como desculpa, você se enxerga por completo (e é assustador). Se vê por dentro, por fora, nos seus outros corpos, visão aérea por drone, tudo. E de brinde com isso vem mais tempo para descobrir o que pode mudar em você e que agora de fato você tem tempo para mudar. Não é tipo uma 'promessa de Ano Novo' que a gente faz enquanto bebe toda a cota de cidra do ano e no outro dia nem lembra. No ano sabático você vai acordar no dia seguinte e dar de cara com (tcharam) você de novo!

Então, a pergunta que eu adoraria estar respondendo nesse instante à bordo do iate da Ilha de Caras com um rosé na mão: e vale a pena, Sophia?

Não pense duas vezes. Faça. Nao espere ter mais de 40 anos ou ser bem sucedido. Faça o quanto antes. Tipo 31 de dezembro.
Só não anote na agenda.
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