A menina que queria voar

A tarde sentava na beira da janela, balançava com o vento, ia pra frente e para trás, frente e trás, sentia a maresia, sentia o cheiro do mar. Pensava em se jogar e na probabilidade de voar.
Estava no quinto andar, lá em baixo a rua era movimentada, lá em cima os pássaros faziam formato triangular e batiam com força contra o vento do inverno chegando, rumavam ao norte, rumavam à primavera e ela esquecia, que a vida ia além de pássaros livres e veículos barulhentos e poluentes.
Queria estar voando, queria estar nadando, queria alcançar a lua, queria alcançar o ponto mais profundo do eterno mar. Queria descobrir além dos ventos e horizontes, queria descobrir além do céu estrelado. Parecia estranho, mas só queria viajar, a pequena menina. Tão pequena e sardenta, com a mesma carinha desde os oito anos, mas com o coração velho e quebrado, desfeita e destemida, coitada da pequena menina, “ela se jogou do quinto andar, nada fácil de entender”.