A SOLA DO MEU SAPATO É MAIS LIMPA QUE O SEU CORAÇÃO

Foi o que ela me disse antes de desligar o telefone. Poético. Nenhuma despedida poderia ser mais forte que essa. Não sem usar fogos de artifício ou bombas de fumaça.
O silêncio que a ligação deixou também falou muito. E concordou com ela. Até a Siri, que costuma ficar do meu lado, concordou com ela, dessa vez.
A verdade é que, de uns tempos pra cá, eu vim me sujando um pouco. Como uma criança que não sabe comer sem fazer bagunça. Ou como um velho, que vai ficando igual criança.
Eu fiquei mais desastrado. Tropecei em tanta coisa, trombei em tanta porta que acabei ficando zonzo. Chacoalhei até que meu pulmão foi parar no pé, meu fígado na garganta e o tal do coração veio pra mão. Aí já viu, né. Acabei derrubando o coitado numa poça, na saída do metrô Sumaré. Nada mais sujo que uma poça de metrô, né? Todo mundo pisa naquilo, tem umas pombas em volta. Aliás, estavam com fome, as pombas. Acharam que era pão, o meu coração. Levei nove bicadas antes de conseguir recuperá-lo. E sempre dizem que pombas tem doença.
O pior é que não tem guardanapo no metrô Sumaré. Tentei limpar com álcool, mas ardeu tanto que eu tive que parar. E não teve coisa que adiantou. Nem sabonete de glicerina, nem shampoo anticaspa.
Pra sentir menos dor, achei melhor aceitar o que todo mundo já tinha aceitado. Deixei do jeito que estava.

Mas sabe, talvez ela estivesse calçando sapatos novos, pelo menos.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.