Sense8 e o Exercício da Empatia

Empatia
s.f.
Ação de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria nas mesmas circunstâncias.

Um dos meus álbuns preferidos da banda Florence + The Machine tem o sugestivo nome “Between two lungs”. Também gosto bastante da música que nomeia o álbum, com sua batida rítmica, sua energia crescente e — claro — sua letra. Um dos trechos que considero mais marcante é:

Between two lungs it was released
The breath that passed from you to me
That flew between us as we slept
That slipped from your mouth into mine
It crept between two lungs

Como sou péssima tradutora, posso apenas resumir a estrofe afirmando que ela fala do poder de troca da respiração, capaz de alimentar não apenas os nosso pulmões, mas os de outras pessoas (vide manobra de ressuscitação). Capaz de alimentar aquilo que está entre os pulmões.

E, a essa altura, eu espero que vocês já tenham entendido a poesia da coisa! ;)

Acreditem, toda essa introdução foi para falar de Sense8, que foi uma agradável surpresa para mim. Haverá aqueles que correlacionam a série com suas incríveis cenas eróticas. Outros tantos estarão divagando sobre universos paralelos e poderes extrassensoriais, como a telepatia. Quanto a mim, Sense8 me pegou por falar “daquilo que está entre os pulmões”. Enxergo a série, acima de tudo, como uma ode à empatia.

Se você, assim como eu , acompanhou o florescimento da internet desde a época em que fomos transformados em notívagos aguardando a meia-noite para não pagar pela internet discada, provavelmente teve a mesma esperança de que os computadores e cabos ópticos seriam capazes de aproximar as pessoas. E eu não posso negar, parte dessa esperança de fato se concretizou — tenho amizades de longa data que nasceram assim. Foi a internet que me aproximou do meu parceiro. E coube à internet me apresentar a livros, filmes e eventos que, de outra forma, eu não conheceria.

No entanto, a internet também virou uma prisão de opiniões grosseiras, pontos de vista cegos, “piadas” que prezam mais pelo prazer doentio do “piadista” a despeito do que sente o alvo da “piada” e coisas do gênero. As constantes batalhas de ego — que encontram palco fácil em lugares como Twitter e Facebook — pouco ou nada trazem de concreto e, em geral, envolvem pessoas cujo lugar de fala já é naturalmente depredado.

E Sense8 entra novamente, nos mostrando como totais desconhecidos podem se conectar de forma a sentir e entender o que o outro pensa e como se sente. Mas é só ficção, você pode afirmar, e não tiro sua razão. Mas seria o exercício da empatia assim tão difícil de colocar em prática? O que acontece com os sensate que não ocorre conosco é a capacidade de “estar” na realidade do outro. Mas aceitá-la, acolhê-la como sua, isso é uma escolha pessoal. No decorrer da série, percebemos que esta não é uma escolha leviana: ela traz consequências. Se abrir enquanto espaço de acolhimento, implica em também sofrer, em também sangrar. Mas também significa compartilhar da alegria do outro.

Da próxima vez em que estiverem diante de uma situação de confrontamento com o outro, em lugar de ceder à tentação do ego de ter a última palavra e estar certo, tente se colocar no lugar dessa pessoa. E se este ainda for um fardo muito pesado para você, troque a grosseria que grita para usar a língua como chicote pelo silêncio. De uma forma ou de outra, você só tem a ganhar. Procure recordar da máxima que Florence e Sense 8 nos ensinam: existe algo entre os pulmões de cada ser humano. Proteja-o.

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