Do que eu falo quando falo de Murakami

“Como num velho sonho de sentido ambíguo, o tempo recai pesado sobre você, que continua a se mover, procurando passar por ele. Mas dele provavelmente não será capaz de fugir mesmo que vá até a borda do mundo. Ainda assim, você tem de ir até lá. Pois há coisas que só podem ser feitas na borda do mundo.”

- Kafka à Beira Mar

A leitura de Murakami é mais que uma leitura. É uma experiência. Exige de mim a corajosa precisão do mergulho em apneia. Respiro fundo e observo ao redor com os olhos treinados de quem está acostumada a se perder de seu mundo. Então, sem que haja tempo para hesitação, eu afundo.

Ler Murakami é uma espécie de meditação. Ele me entrega uma japamala quebrada e gentilmente me pede que a conserte. Devagar. Uma conta de cada vez. No fim, o objeto em minhas mãos parece estar longe de ter qualquer significado. É torto e cheio de meandros, mas serve ao propósito. É um recado: mais vale o esforço que o propósito.

Ler Murakami é fantasiar-se. Sou um menino chamado Corvo. Um velho que caça gatos fugidos. Uma massagista assassina. Sou azul, preta, branca, vermelha e incolor. Sou o Povo Pequeno. E não basta achar que sou — preciso sê-lo. Murakami exige isso e é muito enfático em sua decisão. “Você está em um mundo que foge às convenções”, ele me diz , “e não sobreviverá se não escolher sua máscara ou encontrar uma casca que se adapte ao seu corpo”. Coloco os pés no mundo de Murakami como maza e me esforço por tecer uma dohta adequada. “O que você seria”, ele volta a dizer, “se fosse uma réplica de si mesma?” Eu não sei. Mas me esforço. É tudo pelo esforço.

Ler Murakami é perceber que o solo de St. James Infirmary é uma sutil homenagem à Le mal du pays. É me pegar conversando sobre aomames com uma senhora oriental da Liberdade. É papear durante toda a viagem de trem com a animada idosa ao meu lado. Quem sabe que tipo de mágica ela é capaz de fazer? Ler Murakami é ter ouvidos atentos para todas as vezes em que a arma de Tchekhov é engatilhada. Mesmo que a bala permaneça na agulha depois de eu já ter perdido o fôlego.

Eu não poderia recomendar outra coisa a você a não ser isso: leia Murakami. Se estiver com medo basta segurar minha mão. Vou adorar te conduzir até a borda do mundo.

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