Tenho 300 reais e quero ser escritor. O que fazer?

Antes de qualquer coisa, precisamos esclarecer um ponto: você quer ser escritor ou quer (apenas) ter seu nome impresso na capa de um livro? Se escolheu a segunda opção, esse artigo não é para você. Desculpa! Seu dinheiro será bem empregado em algum antologia, das muitas que brotam por aí, que cobram dos autores para publicar suas histórias em troca de alguns livros e marcadores bonitinhos. Seu nome estará na capa — ou nos créditos autorais — ,você vai ficar feliz e todo mundo fica satisfeito. Exceto, é claro, que esse tipo de coisa é um desserviço à classe dos escritores.

Agora, se você deseja ser um autor, com as graças e tristezas inerentes à profissão, o meu principal conselho para você é: estude! Ao contrário do que muitos pensam — que escritores se resumem a ótimas ideias e uma musa inspiradora excelente — ser escritor exige aperfeiçoamento constante como em qualquer outra profissão. Um bom autor muito lê e muito pratica. Invista seu dinheiro em workshops de escrita criativa, em cursos de revisão e correção gramatical, em livros de autoridades no assunto, nos serviços de um assessor de imprensa ou de um agente literário.

Gaste seu tempo acompanhando bons podcasts sobre o assunto, indo a encontros e festivais de Literatura, discutindo suas ideias e conceitos com outros autores. E, claro, adquira livros dos escritores cujo estilo narrativo mais se assemelha ao seu — ou cujo estilo você gostaria de lapidar para si.

Não se engane acreditando que, por ter o seu nome impresso na capa de um livro, instantaneamente você se transformará em um ótimo escritor. Pelo contrário, para ser ótimo você precisará ser ruim. Precisará ser péssimo. Precisará reconhecer sua própria incompetência e adquirir as ferramentas que o ajudarão a trilhar esse caminho.

Você não precisa ser o melhor logo de primeira, mas precisa se esforçar para melhorar a cada dia. A principal tarefa de um autor é escrever regularmente — tornar isso uma parte intrínseca da sua rotina. Escreva todos os dias, escreva bastante e esteja disposto a aceitar que você escreverá coisas ruins. Faz parte do processo de aprendizado necessário.

“Ah, mas como eu vou me tornar conhecido sem um livro publicado por uma editora?” 
Existem muitos caminhos! O programa KDP da Amazon, para autores independentes. O site Clube de Autores. Revistas como a Trasgo, a Bang e a Pulp Fiction. Pelo Wattpad. Você é um escritor, seja criativo!

“Mas eu não vou ganhar dinheiro em todas essas plataformas, e aí?” 
É verdade. A princípio esses meios de publicação podem não te oferecer grandes resultados. Contudo, você estará adquirindo bagagem profissional, fazendo contatos, ficando na pista de “olheiros” das grandes editoras. A escritora Aline Valek, cujo livro “As águas vivas não sabem de si” foi publicado recentemente pela Rocco, foi descoberta graças à sua newsletter Bobagens Imperdíveis. Antes disso, ela já publicava de maneira independente e mantinha um site pessoal. Um escritor pode e deve ganhar dinheiro pelo que faz — afinal, como eu já comentei, essa é uma profissão como outra qualquer. Mas não permita que a ansiedade por ser publicado te faça cair nas armadilhas do mercado editorial, tão repleto de editais caça níqueis que lucrarão às suas custas sem te oferecer o devido suporte e retorno. Uma editora séria não vai te cobrar para publicar a sua obra. O trabalho dela, no momento que aposta em você enquanto autor, é pagar pelos direitos autorais devidos e utilizar seus recursos para a revisão, aperfeiçoamento e distribuição da obra. Existe um nome para o local em que você paga pela impressão do seu livro: gráfica.

Sobre aqueles 300 reais que você tem aí guardadinhos esperando para ser utilizados em prol do seu desenvolvimento como escritor, seguem algumas dicas:

O livro A Jornada do Escritor, de Christopher Vogler, em que você aprenderá a utilizar o recurso da “Jornada do Herói” em favor da sua obra;

O livro O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, que pode ser considerado o pai da “Jornada do Herói” e fala, neste livro, sobre a construção do mito do herói em diversos momentos da sociedade;

O livro Sobre a Escrita, de Stephen King, em que o autor fala sobre o seu próprio processo criativo e dá dicas — tanto de estilo quanto gramaticais — que são excelentes;

O livro Write. Publish. Repeat., de Sean Platt, que eu ainda não li, mas foi recomendação do autor Thiago D’Evecque — em cuja opinião confio bastante. Ele funciona como uma guia de referência para escritores independentes e trata principalmente de processos como marketing e divulgação para obras independentes;

A oficina online de redação do Rodrigo van Kampen, que também é editor da Revista Trasgo. Eu participei da primeira turma do curso e posso garantir que o material do Rodrigo é excelente e bastante didático;

O curso online Storytelling: Conte Boas Histórias, do escritor e podcaster Ivan Mizanzuk, que se propõe a ir além da “jornada do herói” e procura ensinar conceitos como arcos narrativos em diferentes modelos, fórmula Soren e — pasmem! — fala até sobre ética.

PLUS:
O curso CONTE, do autor Fábio Barreto, custa mais que R$ 300,00. Porém, acompanhei o depoimento de amigos próximos que atestam a qualidade do material oferecido pelo Barreto. São 16 semanas de acompanhamento, atividades e reuniões individuais, então acho que vale bastante a pena para quem quer e pode desembolsar um pouquinho mais para o aperfeiçoamento profissional.

“E opções gratuitas, você tem?” Claro que eu tenho!

O podcast do Leitor Cabuloso, que vale por pequenas aulas de literatura. Todos os episódios são capitaneados por pessoas incríveis, que sabem do que estão falando;

O podcast Os Doze Trabalhos do Escritor, uma iniciativa de A.J. Oliveira tocada pela turma do Leitor Cabuloso. Em cada episódio, escritores convidados debatem temas como ideação, normas gramaticais, estilos literários e o próprio momento da publicação;

O podcast Três Páginas, do Ivan Mizanzuk, que é um spin-off do Anticast e se propõe a fazer a leitura crítica da primeira página de três contos diferentes em cada episódio. As dicas são valiosíssimas e vão te ajudar a enxergar com outros olhos tanto os teus textos quanto os de outras pessoas.

EDIT: Incluo nessa lista o podcast Curta Ficção, tocado pela galera do Pacotão Literário. São episódios rápidos de no máximo trinta minutos que falam sobre os principais pontos a se considerar durante a construção de uma história.

EDIT: O site Overshock tem uma série de postagens intituladas A Oficina, cujo objetivo é fornecer material teórico para escritores. O conteúdo é fluido, interessante e fácil de acompanhar.

E, claro, não deixe de submeter a sua obra para o pessoal abaixo. Pode ter certeza de que eles vão valorizar como ninguém aquilo que tu escreve:

A Revista Trasgo, criada pelo Rodrigo van Kampen, é especializada em fantasia e ficção científica;

O Pacotão Literário, iniciativa do autor Thiago Lee em parceria com os escritores Jana P. Bianchi e Rodrigo Assis Mesquita. O Pacotão funciona como um humble bundle de autores independentes. A partir de R$ 1,00 é possível adquirir as obras do mês.

Sabe o mais legal de tudo? Eles vão te pagar pelo que tu escreve! ;)

O que achou? É escritor e tem mais alguma dica para dar? É escritor e odiou tudo que eu disse? Quer me enviar umas jujubas? Fique à vontade!