Sou BDSMer (ou “Como o BDSM se entranha nas minhas relações”)

Sempre fui uma pessoa agressiva. Desde pequeno, utilizo a violência física para me colocar numa posição de poder ante meus iguais. Colegas de escola, meu irmão… Várias vítimas do meu jeito ogro de ser. Entretanto, essa violência sempre foi uma forma de provar que eu deveria ser respeitado e temido, a despeito da minha baixa estatura. Não era, particularmente, divertido ou prazeroso. Era uma violência com um propósito muito específico.

Mas as coisas mudam, né? E, lá no início da minha vida sexual, percebi que a violência me dava novos tipos de poder, além de um tipo muito específico de prazer: o de um Dominador sádico.
Eu executava práticas relativamente baunilhas, como, por exemplo, provocar um parceiro amarrado e deixá-lo só enquanto eu fumo um cigarro e bebo Coca-Cola em outro cômodo do lado oposto da casa. Mas isso era brincadeira de criança e embora eu não soubesse que tipo de práticas mais extremas poderiam me satisfazer, eu sabia que as que eu já vivenciava não eram o suficiente. Mas eu não sabia que existiam pessoas com inclinações semelhantes às minhas, nem que aquilo que eu buscava construir tinha um nome, BDSM. Só descobri isso aos 20, relativamente cedo para o meio, mas com atraso frente ao meu sadismo.

Marquinhas de sessão com meu atual companheiro romântico e de fetiches

Um belo dia, fui parar num clube de BDSM na zona Norte de São Paulo, alguns amigos me levaram lá. A essa altura, foi muito fácil me identificar como sádico e Dominador, com base no que eu aprendi com as pessoas que conheci nesse clube (infelizmente, ele fechou nem um ano depois, e eu fiquei órfão de um lugar tão sossegado, tão cheio de respeito e tão bem equipado). Eu namorava um masoquista na época. Peguei habilidade com o flogger muito rapidamente, e a primeira sessão que fizemos num lugar privado, eu arranquei sangue das costas dele com o chicote. Foi uma experiência sublime.

Logo em seguida, eu namorei outro cara, mais masoquista e mais submisso que o anterior. Frequentávamos o clube supracitado, e ele sempre me pedia para colocar a coleira em seu pescoço quarteirões antes do destino. Com frequência, eu o deixava sentado num banquinho minúsculo aos meus pés, enquanto eu bebia algum drink que alguém tivesse me oferecido (obrigado, decote-arranca-bebida-de-trouxa!), ou mesmo ajoelhado diretamente no chão. Eu sempre o puxava pela guia da coleira quando algum dominadorzinho velho babão de merda vinha querer me aliciar para ser sua escrava, kajira, qualquer coisa dessas que não me apetecia. “Eu prefiro ELE de coleira”, eu dizia, ilustrando com o puxão. Mas a melhor vez foi quando eu estava puto com ele e conversando com uma Domme mais velha, e usei a mão dele como cinzeiro. Foi catártico.

Depois desses dois relacionamentos, resolvi procurar por submissos (ou submissas, ou pessoas não-binárias… mas péra, isso é coisa para outro texto) numa rede social específica de BDSM. Eu procurava alguém para exercer meu sadismo e minha dominação, e expandir a quantidade de práticas que eu tinha interesse e desejava dominar. Não queria intercurso sexual, nem romance. Mas, por anos a fio, nunca encontrei ninguém que atendesse às minhas expectativas. Como eu sempre dizia, era muito fácil ter algum verme aos meus pés, qualquer um conseguiria isso. Ter um indivíduo valoroso me servindo era o que eu realmente queria.

Explorei fetiches alheios em troca de dinheiro, e isso me satisfazia até certo ponto. Ganhar dinheiro em troca de umas meias sujas, uns sapatos furados, uma meia hora de humilhações online… bem, era divertido, mas impessoal, e só atiçava meu desejo por poder, não meu sadismo.

E aí a vida seguiu, me tornei adulto, descobri ser trans e aí, tudo mudou. Eu não sabia como agir como um Dom, estava acostumado ao papel de Domme. Eu nem sabia como flertar mais, já que os peitos deixaram de significar atenção e bebida grátis e passaram a representar uma inadequação profunda com meu próprio corpo. Eu estava frustrado, perdido, sozinho, com muita violência e tesão presos dentro de mim por tempo demais. E o tempo que eu passei nesse estado foi muito maior do que eu achei que seria capaz de suportar.

Meu resultado de Agosto de 2018 do teste do bdsmtest.org

De tempos em tempos, eu fazia sessões casuais com amigos e era muito elogiado pelas minhas habilidades no spanking. Cheguei até a estabelecer um acordo com uma pessoa próxima de ter um relacionamento exclusivamente D/s mas, por melhor que esse arranjo fosse, me faltava algo mais intenso, e com mais camadas, e eu já tinha perdido as esperanças de encontrar o que eu almejava. Eu já tinha um indivíduo valoroso à minha disposição, eu achava que não dava para querer mais, né? ACHEI ERRADO, OTÁRIO!

Eu encontrei Nero do jeito mais absurdo que vocês podem imaginar (valeu internet! valeu maconha!). As conversas chegaram no BDSM, não me recordo como. E aí eu vim ficar com ele, meu sub, meu pet, meu companheiro, meu amante. As coisas rapidamente se tornaram um 24/7. É um fucking sonho desperto! Ele tem as necessidades dele em relação ao BDSM, que casam muito bem com as minhas, apesar de eu ainda ter medo de feri-lo gravemente, afinal, o controle e a responsabilidade são meus, como Top. Descobri com Nero práticas mais intensas, que me agradam demasiadamente. Nós ajustamos nosso relacionamento de acordo com as nossas vontades, necessidades e particularidades.

Nós sabemos que não podemos dar detalhes da nossa dinâmica, ninguém entenderia, nem mesmo as pessoas do meio. Mas é o que é bom para a gente, então continuamos.

Meu rolê com o sadismo é exatamente o mesmo de quando sou ativo no sexo. Eu sinto prazer em observar as lindas reações que causo. Em ambos os casos, estar com Nero é a melhor coisa que poderia me acontecer. Ele é extremamente responsivo, e suas reações são sempre sublimes, e me remetem a fenômenos naturais, como vulcões, terremotos, tsunamis. Eu finalmente encontrei o sub perfeito. E não largo dessa vida por nada.

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