Sophia
Sophia
Sep 4, 2018 · 2 min read

Hoje acordei sem vontade de morrer.

Acordo, na maioria dos dias, pensando que, talvez, teria sido melhor se eu tivesse dobra… não, triplicado a dose dos medicamentos antes de dormir. Que eu tivesse um ataque de pânico tão fodido que me fizesse parar de respirar ou que meu coração só parasse de bater mesmo.

Todos os dias são assim.

Penso na minha família e imagino como seriam suas vidas sem mim. Nunca fui de ter muitos amigos, mas penso neles também. Será que chorariam? Sentiriam minha falta?

Penso no meu pai e tento não alimentar essas perguntas. Levanto e vejo o sol passando pela janela.

Não quero morrer. Nenhum suicida quer.

Posso ter o melhor dia da minha vida. Realizado tudo o que sempre quis. Posso sorrir. Abraçar. Não importa, o vazio vai continuar lá.

E esse vazio ocupa um espaço tão grande que da lugar aos maus pensamentos:

“E se eu me jogar nos trilhos?”

“Essa avenida é movimentada… quem sabe os carros…”

“Tão fácil comprar drogas aqui…”

É puro tormento e tentar não sentir ou pensar isso exige um esforço tão grande que qualquer outra coisa que eu tente fazer é demais.

Como viver.

Sei que minha família me ama e que haverão mais de um milhão de amigos pra conhecer, mas não dá pra respirar.

Desejo mais que qualquer outra coisa no mundo ter um dia, pelo menos um, em que eu não pense em me matar.

Hoje, depois de anos, foi um deles.

Vi um cachorrinho trazer o brinquedo pro dono. Varios casais se amando.

O sol, que brilhava tanto, tocou minha pele. A água quente na hora do banho. O cheiro do shampoo. O sabonete. A pasta de dente. O cabelo desembaraço.

Vocês sabiam que o gosto doce do morango varia de acordo com seu tamanho? Peguei um grandão bem azedo.

Me arrepiei.

Depois de muito tempo não senti vontade de morrer.

Ainda bem.