Cabo Polônio por Vanessa Machado

Universo paralelo. Cabo Polônio.

Alguém conhece Cabo Polônio? o/

Se você alguma vez já foi visitar esse lugar no Uruguai, vai entender o que estou falando. Ainda um lugar onde uma minoria conhece, e isso que talvez o deixa genuíno de certa forma, pois é um local que se manteve intacto e sem grandes evoluções comerciais como a maioria das praias que costumamos conhecer.

O que talvez faça o lugar ser tão diferente pode ser por sua história ou por quem já passou por lá. Nos anos 80, foi habitado por colônia de hippies, também é ambiente de moradores pescadores e sua estrutura em termos de conforto é praticamente incomum, ou diria, antiga perto do que estamos acostumados. Isso pode ter acontecido também pelo local ser como uma península rodeada de dunas e isso dificulta o acesso até a praia.

Essa foi a terceira vez que passei a virada de ano en el Cabo, e a primeira vez que fui tive a percepção que estava em outra época.

Na verdade, quem deseja conforto físico irá passar dificuldades. Eu diria que lá é um lugar para conforto emocional, onde você não terá luz elétrica, sistema de esgoto, aguá em abundância, ou hipermercados que vão dar tudo o que precisa, mas terá o céu mais estrelado, noite a luz de velas, tempo o suficiente para desfrutar e voltar a saber o que é viver sem internet, o pôr do sol no mar, o valor de ter água para beber e tomar banho, liberdade para caminhar, sem ruas, cercas, trânsito.

Grande parte das casas oferece uma pequena infra-estrutura, porém existem algumas com painel solar e poço, o que garante um pouco mais de conforto, água quente e água limpa à disposição.

À noite, se você quiser sair e dar uma volta, irá precisar de uma lanterna, quando a lua não ilumina todo o Cabo, o que é maravilhoso quando é cheia, ou quando o Farol do Cabo não for suficiente.

Aquela música “12 segundos de oscuridad” de Jorge Drexler retrata o tempo do farol do Cabo Polônio entre seu giro de luz por toda a praia.

Aí você vai sair para o centrinho do Cabo, uma pequena rua (apesar do local não ter loteamentos claros e pavimentos, essa é a rua principal de chegada ao Cabo) pela noite com sua lanterna e vai entrar no Bar del Ciego. O nome não é por acaso, o dono do bar é cego, Joselo, e o lugar é mágico, completamente tomado por plantas e vegetações, entra num labirinto verde com o chão tomado por cascos de garrafas formando um caminho. Ou também o Estación Central, aí sim, a balada, um inferninho com músicas latinas, cumbias e alguma música brasileira antiga que os uruguaios adoram. E temos mais opções, mas sempre mais hiponga do que estamos acostumados.

O outro dia você acorda e vai à praia, leva sua canga, guarda-sol, se bronzeia até o momento de decidir que precisa ir ao mar se refrescar. Ao entrar, a água mais gelada do que está acostumado, gela seus dedinhos dos pés, é congelante. Aí você volta, tem fome, compra um buñuelo de algas (bolinho de alga), feito com algas do mar, ou um copo cheio de tomate cereja temperado com azeite de oliva vendidos na beira da praia. E ao final do dia, você percebe que terá um belo pôr do sol no mar e vai ao Paradouro, único bar na praia mais moderninho sem largar o estilo hiponga, com música, bebidas e comidas. Lá você vê um dos pores do sol mais lindos, com certeza.

Ainda tem os lobos marinhos que são vistos quando se visita a costa perto do Farol, eles ficam transitando entre as rochas do continente e uma ilha próxima, e normalmente é o destino de vários turistas que vão pela primeira vez e fazem essa caminhada pelas pedras para dar a volta na península.

Cabo Polônio por Vanessa Machado

E como o Cabo Polônio é protegido por dunas, ou seja, para e chegar lá somente com um 4x4 e claro, se você for autorizado a chegar de carro, pois somente quem possui residência tem permissão - pois é bom lembrar que é um Parque Nacional - caso contrário, terá que estacionar seu carro numa espécie de rodoviária do Cabo e comprar seu ticket de ida e volta para ser levado pelo Mamute, uma espécie de caminhão tipo pau de arara.

E após contar todo o diferente desse lugar e o motivo de querer ir lá tantas vezes, por mais inconveniente aos dias de hoje ele seja, é isso que me faz revigorar e lembrar o valor existente nas coisas simples, de que não precisamos de tudo e como nos adaptamos com facilidade.

Mas ao mesmo tempo, sei que não é um lugar para se viver. Por mais mágico que seja, e quem já passou e viveu alguns dias lá repito que sabe o que me refiro, temos uma vontade gigante de permanecer como eternos hippies naquele lugar completamente fora da rotina do mundo, porém não é nossa realidade.

O ideal seria se tivéssemos a consciência de valor que tivemos quando valorizamos o que vivemos no Cabo e o que ele nos oferece, mas aqui, na cidade de pedras. Andar a pé, o valor da água, saber que a luz não é tão importante para dependermos dela, que não precisamos o tempo todo de internet e que temos as mesmas 24 horas.

A gente precisa de muito pouco pra ser feliz :)