Oblomovismo enquanto potência

Uma versão estendida desse texto foi publicada no Animus Mundus

É uma coincidência interessante que Oblómov tenha sido traduzido diretamente do russo em 2013 pela Cosac Naify. A nova tradução de uma obra de 150 anos demonstra como a literatura é capaz de recontextualizar e ser recontextualizada. Portanto, embora a análise mais superficial do romance encare a inação do protagonista uma caricatura do declínio da nobreza com o fim da servidão na Rússia, defendo que ela pode ser encarada como uma estratégia de potência estética e resistência política.

Em seu curto texto Sobre o que podemos não fazer, Giorgio Agamben apresenta a potência não apenas como (1) aquilo que podemos fazer — a possibilidade de realização — e seu oposto (2) aquilo que não podemos fazer — a negação da potência, a impotência. Todavia, a negação da potência possui ainda outra face oculta: (3) aquilo que podemos não fazer — a possibilidade de negar a realização.

A terceira face da potência, a mais sutil, pode ser também a mais disruptiva. A negação foi exemplarmente incorporada em Bartleby por Herman Melville desde 1853, apresentando esteticamente — tanto no nível literário-linguístico quanto no nível político-social — o poder de ser estático conjugado ao simples “acho melhor não”. O nobre russo Iliá Ilitch Oblómov, de Ivan Gontchárov, fica ao lado de Bartleby, tanto estética quanto cronologicamente.

O nobre russo Iliá Ilitch Oblómov, de Ivan Gontchárov, fica ao lado de Bartleby, tanto estética quanto cronologicamente.

O oblomovismo é um modo de vida: cansar-se apenas ao preparar-se, planejar, sonhar e imaginar possibilidades, sem nunca realizá-las. O termo, apresentado pelo melhor amigo e contraparte de Oblómov, o "alemão" Andrei Ivánitch Stolz, torna-se uma palavra nefasta que incorpora toda imobilidade. Enquanto Stolz é incrivelmente eficaz — “era todo feito de ossos, músculos e nervos (…) não fazia movimento supérfluos” — Oblómov desistira de escrever uma carta para administrar sua propriedade por repetir dois ou três “o qual”.

Uma análise vulgar poderia apontar que o ócio de Oblómov é a metonímia da nobreza russa da época, enquanto a eficiência alemã de Stolz é uma ode à burguesia que crescia com o fim do regime de servidão. Gontchárov não poderia estar mais distante de tal didatismo. Ironica e deliberadamente, Gontchárov não faz de Stolz seu protagonista, tornando-o apenas uma parede sobre a qual projeta-se a personalidade tridimensional do idílico Oblómov, cujo sonho de voltar à infância e viver sempre e apenas no hoje é narrado em um dos principais capítulos do romance.

Longe de uma indolência, o protagonista é antes um Dionísio fatalista, capaz de ver que aqueles que trabalham vão para lá e para cá é que estão presos ao cotidiano (…)

Oblómov se destaca e é levado a outro plano de tratamento estético, conforme sutilmente apontado na capa do projeto gráfico da Cosac Naify. Longe de uma indolência, o protagonista é antes um Dionísio fatalista, capaz de ver que aqueles que trabalham vão para lá e para cá é que estão presos ao cotidiano do que ele à sua impotência — que lhe oferece apenas possibilidades. Entretanto, ele também paga por seu modo de vida: sua angústia, embora não raro desdenhada pelos outros personagens e pelo narrador, é tratada esteticamente como sentimento humano extemporâneo.

Agamben aponta que operação de poder, segundo o seu Deleuze, é a separação brutal que põe, de um lado, o indivíduo e, de outro, as suas possibilidades de realização. Todavia, o contemporâneo é ainda mais brutal: separa-nos do podemos não fazer. Aquilo que ele identifica como a “flexibilidade que é hoje a primeira qualidade que o mercado exige de cada um” é o estranhamento da impotência: não somos capazes de distinguir o que não podemos e o que podemos-não-fazer. Esse é o traço que impede a resistência. Logo, negar a ação e conciliar-se com a impotência torna-se estratégia política e regime estético a um só tempo.

É a impotência — seja a impossibilidade de realização ou a possibilidade de não-realização — que permite a estética

Uma existência governada pela teleologia é meramente um conjunto de gestos vazios. A noção de eficácia mostra-se como a principal agente das estruturas estabelecidas. Se não é permitido conciliar-se com a impotência, não é permitido criar ficções, nem refletir sobre os atos; não é permitido viver esteticamente. É a impotência — seja a impossibilidade de realização ou a possibilidade de não-realização — que permite a estética: qualquer potência do gesto consiste na sua própria impotência diante do sistema. Diante da impotência, Bartleby e Oblómov são duas perspectivas de um mesmo gesto: ambos apontam para a negação como estratégia de resistência.