Àquelas que são negadas a voz

Voz: substantivo feminino
1. fon som ou conjunto dos sons produzidos pelas vibrações das pregas vocais sob pressão do ar que percorre a laringe.
2. som característico de certos animais.
3.faculdade de falar; fala.
4. manifestação de quem suplica, protesta, aplaude etc.
5. modo de pensar ou julgar; opinião.
6. direito de manifestar opinião.

A comunicação verbal é um dos elementos que nos distingue como seres humanos. O processo pelo qual um bebê adquire a fala, um dos elementos fundamentais na formação do indivíduo, inclusive da sua psiquê. Em que pese que a grande maioria dos seres humanos se comunique verbalmente (e aqueles que não se comunicam verbalmente realizam sua comunicação de outras formas equiparadas), a voz é um direito de poucos.

Não sou uma pessoa que fala pouco, de fato, quando estou entre pessoas com as quais me sinto à vontade, ou quando estou num dia bom, costumo falar bastante, às vezes demais. Em contrapartida sou um das muitas pessoas que não podem exercer sua voz: sou mulher, sou gorda, sou bissexual, sou não monogâmica. Meu lugar é longe dos holofotes e certamente muito longe de onde se colocam as vozes.

Só que nunca gostei de ter minha voz negada. E mesmo não gostando de ter minha voz negada, lutando para ter o direito ao grito, o exercício da minha voz é auto-violência. Aprendi que, para ficar segura, tenho que me manter no silêncio, nas falas vazias. Tenho que calar minha voz. E assim por longos períodos eu permaneço em silêncio, aceitando as cotidianas dores de ser oprimida.

Silencio porque a palavra quando entoada para ser ouvida, a palavra que vira voz, o meu grito, é uma força contra-corrente. E dói. As palavras passam rasgando minha garganta e eu termino sufocada no meu próprio sangue.

O silêncio tão pouco é um lugar confortável. Não há “zonas de conforto” para as pessoas oprimidas. Enfrento a dor e o sangue, as feridas abertas e reabertas e grito! Vou continuar sendo oprimida, é a verdade latente que acompanha nossas vidas. Mas não farei isso em silêncio e nenhuma das minhas mortes será higienizada pela negação da verdade: de que eu tenho voz. Eu tenho voz! E resisto.