Às mulheres dos meus companheiros*, ou o que eu posso dizer sobre não-monogamia

É difícil precisar um momento no qual as coisas atingem um significado mais profundo. Tanto tem que ser considerado para isso, nossas vivências, lugar de fala, nossa história. Eu demorei mais de 15 anos para chegar a este texto, a conseguir ver essas ideias da forma que vejo hoje. E absolutamente nada garante que aqui você encontre a resposta que procura. Mas chegou a hora de eu dizer a minha meia dúzia de palavras sobre a não-monogamia.

Como falar sobre não-monogamia para mulheres? Como falar sobre não-monogamia para mulheres que não se encaixam no padrão cis, hetero, magro, branco, classe média (ou alta), neurotípicas, ou seja, para a grande maioria de nós, mulheres, que sofremos opressões doloridas e pesadas diariamente por sermos mulheres, mas também por não sermos as mulheres possíveis, as mulheres que a sociedade prega como ideais? A resposta para isso passa pelo mesmo caminho que passa a resposta à pergunta: como falamos sobre relacionamentos para mulheres às quais a monogamia é negada?

O triplo suporte da monogamia

Quero começar defendendo aqui uma premissa fundamental para que você entenda como desenvolvi estes pensamentos: a monogamia não existe. No entanto, em sua inexistência, ela forja toda a vida, cultura, ideologia e rede de significados da existência das mulheres na nossa sociedade.

Que estejamos questionando cada vez mais isso, não interfere (ainda) tão significativamente no fato que há uma rede ideológica que nos constrói enquanto seres ao redor da máxima: encontrar o príncipe encantado. Além do fato óbvio que o príncipe encantado não existe, o problema da teoria do príncipe encantado é que dela deriva a necessidade de você ser uma “princesa”. Princesas, é claro, que são cis, brancas, heteros, ricas e tudo aquilo que nós já sabemos. E que provavelmente você não é. Certamente, eu não sou.

Sem querer me aprofundar na criação do amor romântico como elemento fundamental para sustentação do sistema e na mitologia e literatura desenvolvida a partir desta necessidade, porque realmente há muito a ser dito, quero falar um pouco sobre a que serve essa ideia, que é a submissão identitária da mulher ao homem e à existência deste amor (ou a não-existência).

O que isso quer dizer? Quer dizer que sim, ainda construímos nossa vida de forma a colocar a busca pelo amor romântico, o príncipe e etc a cima de toda e qualquer outra questão. Em que pese que há muitas mulheres que conseguem desenvolver carreiras incríveis em diferentes áreas apesar disso e também que há mulheres que tem que sair de casa pra trabalhar em sub-empregos para sobreviver, o imaginário ainda está voltado para essa busca. É só ver as músicas, filmes, novelas, toda produção cultural se trata de relacionamentos afetivos-sexuais, de idealização de parceiro, de busca e de sofrimento (desde Pablo até qualquer estrela pop internacional, passando pela ópera ou por bandas cults que provavelmente jamais vou conhecer, diferentes meios para a mesma mensagem).

E o que acontece quando temos como objetivo maior, pairando sobre todos os outros, encontrar um par romântico? Nos tornamos vulneráveis. Guarde esta ideia porque a ideia central de toda essa discussão é isso: a vulnerabilidade social, econômica, política, emocional, psíquica das mulheres. Nos tornamos vulneráveis porque a ideia original deste “projeto monogamia” era garantir que a mulher estivesse “presa” ao lar e ao marido como forma de garantir a manutenção dos bens na mesma família. “Mas e eu que não tenho bens?”- perguntamos eu, você e a grande maioria das mulheres, muitas vezes achando que essa versão da história não nos representa. Pois bem, temos que lembrar que a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. Mesmo que os detentores de meio de produção, os capitalistas, os ricos, chame como quiser, sejam a minoria, nossos ideais, valores e anseios advém dos ideais valores e anseios deles e para eles. Exemplo extra relacionamento: funcionário achar que tem que trabalhar mais que seu horário, pra além de sua função e etc. Pra que? Ele vai ganhar mais ou viver melhor? Não! Pra garantir o lucro do patrão. Sim, olhando de forma tão clara parece que não faz sentido, mas é assim que as coisas funcionam.

O que me leva ao terceiro ponto e mais difícil de olhar de frente: no pano de fundo de toda essas histórias mal contadas, desses sonhos e ilusões há uma mensagem que é esculpida muito profundamente na nossa alma, a de que precisamos de um homem pra sobreviver. Não estou falando viver, estou falando sobreviver. Que precisamos de um marido para prover sustento, moradia, segurança, etc. Não à toa que existe a teoria do “bom partido”, o homem que tem bom emprego, “boa família”, e mais uma série de valores agregados que se pararmos pra pensar de verdade torna toda a ideia absolutamente pavorosa.

Cabe aqui uma problematização: é claro que descendo a escala sócio-econômica encontramos uma diferença material objetiva. É muito mais comum casas chefiadas por mulheres e muito mais comum homens que não trabalham e são sustentados pelas mulheres. Sabido também que estes homens não se ocupam, na maioria das vezes, dos afazeres domésticos,não havendo uma inversão de valores, somente uma configuração diferente para o mesmo problema que é o fato de que as mulheres vão dar de tudo para ter e para manter um relacionamento. Inclusive se sujeitar a condições de trabalho terríveis para sustentar não somente a si, o que seria ruim, mas para sustentar também um homem que em contrapartida factualmente não oferece nada. Mas emocionalmente, ideologicamente oferece, oferece legitimação social. Porque afinal, a vida pode ser muito difícil mas, “pelo menos eu sou casada”,

A monogamia não existe

Eu adoro ver certos canais de TV absolutamente sexistas que são “voltados ao público feminino”. Passo horas no pinterest vendo coisas de casamento. Sonho secretamente em ser uma dessas pessoas que recebe pedidos de casamento que viralizam na internet. Sim, estou falando de mim mesma, Bruna, não-monogâmica. Ter consciência de todas essas coisas que escrevo, e ter feito as opções de vida que fiz não construíram ao redor de mim uma bolha inatingível onde nenhuma ideologia da sociedade me afeta. Longe disso!

E o principal motivo pelo qual eu sonho com um pedido de casamento é que o direito à monogamia me foi negado. Por eu ser gorda (mesmo), por eu ser bissexual, por eu não ter um diploma universitário, por ser de origem classe média baixa, por não ter onde cair morta, por não ser neurotípica. Todos os dias eu olho para o mundo e sei que não sou a princesa, que não sou uma dessas mocinhas por quem os homens vão morrer de amor. Sei que não sou digna de ser amada de verdade. Escrever essas palavras cortam meu coração profundamente, mas quero ser o mais clara possível porque essas coisas, elas precisam ser ditas por alguém. E por ser essa pessoa “não amável, não casável” meu nível de vulnerabilidade social é grande, assim como meu nível de vulnerabilidade às opressões: quanto mais opressões somos sujeitas, mais vulneráveis nos tornamos perante o sistema opressor. O que quer dizer que estou mais propensa a vivenciar relacionamentos abusivos, violentos e por aí vai. E, importante dizer, vivenciei quase todos os tipos de relacionamento abusivo que existe ao longo dos meus quase 30 anos de idade. Minha vulnerablidade não é teórica, é real. E as vivências negativas são acumulativas, isso quer dizer que hoje me sinto muito mais vulnerável, “menos sã” e mais propensa a sofrer do que era com 15 anos de idade. Mas vamos deixar um pouco de lado minha história e vamos falar do outro lado…

Existe um número muito muito pequeno de mulheres que são essas mulheres: as casáveis, amáveis… as princesas. Àquelas que têm direito à monogamia. Elas são pedidas em casamento com anéis maravilhosos, casam de branco em lindas festas que me fazem chorar. Essas mulheres que, como as princesas, serão “felizes para sempre”. Mas opa, pera aí… existe isso de felizes para sempre? Então, gente, não. Essas poucas mulheres se casam, sim, mas acabam se deparando com a realidade da construção original da monogamia, ou seja, elas são como a Rapunzel, aprisionada numa torre, levadas a eventos sociais, exibidas como uma grande conquista (um lindo objeto decorativo) enquanto seu algoz, o homem, sai livremente pelo mundo sendo efetivamente transando com outras mulheres (normalmente as não-casáveis, negras, gordas, trans, etc) ou exercendo sua possibilidade de fazê-lo, em bares com os amigos, pelas ruas, em todos os espaços que são dos homens, ou seja, todos os espaços públicos. E essa mulher vai achar que se ela cumpriu todos os requisitos para a felicidade (sendo branca, magra, cis, etc), conseguiu “um bom partido” e mesmo assim ela não é feliz, que a culpa é dela. Que ela não é boa o suficiente, não é magra o suficiente, interessante o suficiente, seja lá o que for o suficiente. Porque sempre tem algo que a mais “emprincesada” das mulheres não será o suficiente ou a sociedade a fará achar que não é, porque o modelo de mulher ideal não só não existe como só serve como sistema de opressão e controle das mulheres, não é um modelo possível de ser seguido.

Essa mulher, a que tem direito a monogamia, está sujeita somente a outra forma de opressão, objetificação e prisão. Nada na monogamia é libertador para a mulher. Seu corpo, suas emoções, sua vida fica presa a uma casa, um homem, uma família, um sentimento… a uma ilusão que é materializada por esses elementos concretos. O que é, então, o “direito a monogamia”? É o direito de ser prisioneira de um homem. Porque, vamos aos fatos, a monogamia, como sistema, não existe para os homens! Precisamos parar de nos iludir com isso, na busca da exceção! “Ah, mas fulano não me trai” Pode até ser que ele não te traia, não quer dizer que ele não está sendo beneficiado da mesma forma pelo sistema de opressão mononormativa!Que ele não está vivenciando os espaços coletivos, enquanto você tem que se preocupar com a conta de água. Porque não podemos esquecer que toda a estrutura social é perpassada pelo machismo. Por mais progressista, desconstruído, maravilhoso que seja o marido ele é beneficiado por esse sistema e você não é. Isso se você tiver a sorte de ser uma das “princesas”, do contrário, não dá nem pra se iludir que você é, porque SE você conseguiu se casar vai passar o resto da vida agradecendo de joelhos ao homem maravilhoso que te quis apesar de você ser ______ (insira aqui qualquer origem, característica ou elemento que faça você ser oprimida). E disso pra um relacionamento abusivo não é nem um passo, já são os dois pés pra dentro.

A monogamia não é nossa amiga

Chego neste ponto do texto com a vontade de escrever “foda-se, vamos todos morrer mesmo”. Porque essa é a sensação que eu tenho sobre tudo isso. Lutando fortemente contra esse sentimento, vou tentar começar a fechar as ideias e dizer porque eu, uma pessoa a qual a monogamia foi negada, não luta por este direito.

Primeiro, eu não vejo sentido em lutarmos para sermos prisioneiras de homens. E lutar pelo direito a monogamia, ao meu ver, é lutar pra isso. Para ser(mos) reconhecida(s) como objeto de luxo, ao invés de só objeto. Pode fazer diferença pro dono ter um objeto ou um objeto de luxo, mas pro objeto, bem, não faz, porque objeto não sente. Por isso eu coloco todas as forças que me restam para lutar pelo que parece aqui óbvio desdobramento deste texto: lutar para que não sejamos objetos. E só alcançaremos a existência total de sujeitas quando tivermos autonomia.

E autonomia não é algo que você compra no mercado e dá pra alguém. Não é uma ideia que eu acordo com ela amanhã e pronto, sou autônoma. Se alguém te dizer isso, pode mandar pra merda. Autonomia tem base material! É impossível construir autonomia quando se é vulnerável socialmente, politicamente, economicamente, e por aí vai.

E digo mais: enquanto não conseguirmos construir autonomia para as mulheres não haverão relacionamentos sem hierarquia. Vamos cortar essa outra ilusão pela raiz, por favor. Esta é uma ideia extremamente opressora para as mulheres, e ainda mais opressora quanto mais vulnerável for a mulher. Dizer que os relacionamentos não ter hierarquia é o mesmo que dizer que é igual você terminar um relacionamento com uma pessoa que você gosta, vê de vez em quando, faz sexo do que terminar um relacionamento com uma mulher que vive com você. No primeiro caso a mulher vai sofrer, claro que vai. No segundo caso a mulher além de sofrer a dor da perda vai sofrer por não saber de vai ter onde morar ou o que comer. Dá pra entender a diferença?

Por isso que eu em todos meus relacionamentos coloco as companheiras co-habitantes dos meus companheiros em primeiro lugar. Isso não é invisibilizar meus sentimentos, meus amores, não é me colocar em segundo plano. É respeitar uma mulher, uma irmã, uma companheira que está numa situação mais vulnerável que eu naquele relacionamento. Porque sim, vulnerabilidade é relativa. Ao mesmo tempo que sou extremamente vulnerável em relação ao companheiro com quem divido a casa, sou muito pouco vulnerável em relação a outro companheiro que vejo poucas vezes por ano. Doeria terminar este segundo relacionamento? Claro que sim, amo este companheiro, de verdade. Mas efetivamente, além de perder a possibilidade de transar com ele, beijar, talvez até a possibilidade de sentar e tomar um cerveja e conversar sobre a vida (que eu acho triste, mas às vezes isso também a gente perde com fim dos relacionamentos), não vou perder nada. Minha vida, meu dia a dia, não vai mudar nada. Vou ficar triste, vai passar. Vida que segue.

Existem relações sem hierarquia? Existem sim, ou relações próximas disso. Em basicamente três casos: adolescentes ou pessoas jovens (que moram com os pais ou são sustentados por eles), pessoas de classe média alta (que não dependem financeiramente de outra pessoa seja por trabalho ou herança), ou relacionamentos não monogâmicos homossexuais (e somente em casos que não hajam outras opressões interseccionadas, ou seja, se todos são brancos, todos tem o mesmo padrão financeiro e etc.) Ou seja, é a exceção da exceção da exceção. E mesmo assim eu tenho lá minhas dúvidas se a não hierarquia é real ou se há uma vontade tão grande de que ela existe que tem pessoas dentro deste relacionamento sendo seriamente oprimidas por esse ideal. Isso acontece, e muito.

Fechando, sobre o que não-monogamia não é

Ao meu ver, dentro do que eu defendo, pra mim, ou seja, quando EU estiver falando de não-monogamia eu não estarei nunca, jamais, em nenhuma hipótese falando de liberdade para homem cis fazer o que eles querem. Não faz sentido algum lutar por algo que já está dado. Sim, eles já fazem o que querem, inclusive em relação a nós, nossos sentimentos e relacionamentos. Não-monogamia não quer dizer, nunca, dar cartão verde pra um homem que você se relaciona ficar com quem ele quiser e da forma que ele quiser. Pelo contrário, não-monogamia pra mim quer dizer, na grande maioria dos casos, negar este direito aos homens, o direito de fazer com as mulheres o que eles bem entendem sem pensar ou se importar de fato com as consequências.

Se trata de homens desconstruindo profundamente o machismo em lugares onde eles não querem ver que são machistas, abrindo a mão de seus privilégios estabelecidos. Se trata de mulheres lutando para tomar o controle de suas vidas, seus corpos, seu sexo, suas vontades, emoções, psique, sentimentos, alma. Do seu ser como um todo.

Se trata de equidade, JAMAIS de igualdade, porque nossa sociedade é obscenamente desigual. E equidade é homem colocando a preocupação com o lar em primeiro lugar. É homem investindo dinheiro, tempo e energia para que sua companheira tenha uma boa formação e um bom emprego. É homem deixando de sair, de beber, de ir pro bar pra que a mulher possa fazer isso. É homem deixando de gastar dinheiro do casal com outras mulheres para que a mulher tenha paz de espírito para viver. É homem respeitando as mulheres, em seus desejos, anseios e sonhos. E é absolutamente e 100% sobre as mulheres e sua libertação.

E sabe o que a não-monogamia é? É uma luta revolucionária! Que não pode caminhar se não for de mãos dadas com o feminismo e com uma transformação radical da sociedade, que para mim é o fim do capitalismo. Porque enquanto houver um sistema de exploração, haverá um sistema de opressão. E, assim como ser socialista, se não monogâmica é nadar contra uma maré que está tentando te afogar o tempo todo. É dedicar a vida a algo que você acredita, mas que sabe que provavelmente não verá para si os louros da vitória, no entanto que você sabe que vale a pena lutar porque a alternativa é ceder e ser objetificada, objetificada e objetificada.

Sempre que falo com mulheres sobre meu sofrimento, sobre a minha dor, sobre o quanto é difícil para mim coisas como saber que meu companheiro com quem co-habito se relaciona com outras mulheres, a resposta das pessoas é: “ah, mas por que você não desiste disso e entra num relacionamento monogâmico?” Este texto é minha resposta. E se resume ao fato de que: 1) a monogamia não existe; 2) a ilusão da sua existência, não me pertence; 3) eu quero ser sujeita da minha vida.

Certamente você deve estar se perguntando o que fazer com tudo isso que eu disse, porque parece levar a um beco sem saída. E leva. Eu estou tendendo a achar que a não-monogamia não é um modelo de relacionamento e não tão só uma escolha política, ela é uma chave de criptografia. Com essa chave você pode desencriptar o código “relacionamentos afetivos-sexuais (na nossa sociedade)”. O que você faz com essa chave, é com você. Eu ainda não sei bem o que fazer com a minha, e muito frequentemente mais me corto com ela do que me resolvo. Mas uma vez que se tem a chave ela fica na sua alma e o mundo nunca mais é o mesmo.
___________________
*este texto foi escrito por uma mulher cis para outras mulheres que se relacionam com homens. Ele talvez sirva para mulheres trans e também para algumas pessoas não-binárias designadas mulheres ao nascer, mas certamente não tenho a ambição de abarcar realidade e vivências que não são minhas.

(Publicado originalmente em 27/04/2015 no meu blog: apalavrista.blogspot.com)