Maré Viva

Oi, eu acho que o Medium serve para falar — seja qual for a maneira que escolhemos para narrar o que queremos narrar -, e agora eu vim aqui fazer isso de forma não-poética e, se eu der sorte, não tão subjetiva (já que eu sempre escolho a subjetividade porque morro/sempre morri de vergonha de demonstrar fraqueza, então falo tudo a meias palavras). O curioso é que, apesar de eu sempre acabar mergulhada na minha, na sua, na nossa bad, eu nunca admito nem para mim nem para ninguém que as coisas pelas quais eu passo ou tudo que me magoa ou incomoda sejam coisas reais. Eu sou aquele tipo absurdamente irritante de pessoa que sofre sozinha, acha que todo transtorno fui eu que trouxe a mim mesma, transforma a dor em algo de magnitudes muito maiores, e tem que enfrentar todas as paranoias sozinha, aguentando no osso.

Acho que vim aqui dizer que nos últimos dias uma coisa me incomodou. Muito. Aliás, também sou do tipo de pessoa absurdamente irritante que usa “incômodo” como eufemismo para “magoar”, “me fazer desistir e abrir mão de qualquer esperança em determinado âmbito da vida”, “me fazer aceitar o fracasso por completo” etc. Isso soou como um bem humorado desabafo? Eu espero que sim, eu odiaria que vocês pensassem que sou fraca (saudades subjetividade). Mas então eu lembrei de uma coisa que eu aprendi esse ano. Teve uma (01) coisa que eu DE FATO aprendi em 2016 e eu gostaria de compartilhar nessa rede maravilhosa de pessoas que se jogam no drama que nem eu: a vida flui.

Eu aprendi isso, eu aceitei isso e é a única coisa que me põe pra frente, muitas vezes.

(Relendo o texto, eu tenho tanto medo que vocês pensem que essa é uma postagem motivacional positiva otimista good vibes luz gratidão, pelamor do universo, não é.)

(continuando)

Eu sinto que simbolicamente perdi muitas coisas esse ano. Perdi ideias, objetivos, perspectivas de vidas. Na verdade, foram mais mudanças pessoais em grande escala (estar de fato me tornando adulta, não young adult, adult, sem floreios) do que perdas, mas eu aprendi também que mudanças tem um sabor bem doloroso de perda.

Conversei sobre isso com a minha mãe, que me falou algo sobre como existem diversas mortes e nascimentos dentro de nós mesmos diariamente, que dirá em uma vida!, e eu acho que concordo com ela, no fim das contas. Ela me disse isso em um momento de desespero, havia me rendido: eu simplesmente não conseguia me fazer parar de chorar. Eu sentia que havia perdido algo físico, algo que servia de base para tudo o que eu era, e de um segundo para outro, tudo o que eu queria, já não queria mais, tudo o que eu pensava, já não pensava: “parece que eu morri”, eu gritava pra ela. Virar adulto — seja por forças maiores impostas pela vida, mais cedo do que de costume, ou simplesmente por voltas ao redor do sol — é um choque, uma perda. A sensação de luto era bem evidente. Morri. E morria mais a cada dia. A cada dia uma pessoa diferente, só que o mundo em que eu estava inserida não bancava essa morte e muito menos esse renascimento. Me vi obrigada a lidar com os desejos, aflições e escolhas (erradas) de uma pessoa que havia morrido, e eu deveria tomar o lugar dela dali por diante.

E agora, perco de novo. Dou de cara, me engano. Mas por várias vezes, nos últimos dois anos, eu me vi em lugares que não previ, conheci e interagi com pessoas que não achava que me ouviriam, e elas me entendiam, me acolhiam: a vida flui. Possivelmente, vai melhorar.

Eu escolho aceitar que não sei das coisas, que não sei o que vai acontecer em mais meio ano (inclusive, provou ser um bocado de tempo). Eu me largo, bem clichezão: à deriva. A vida flui, eu me deixo ser carregada, meu psicológico e emocional agradecem. Pessoas, lugares, erros, poucos acertos: tudo fluindo pela minha lateral, e eu deixando. Flui, flui. Quem sabe um dia, harmonia.

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