A
pirataria
não sai
de mim.

A pirataria foi enraizada na minha vida, desde criança. Os meios eram escuros e sem muita alternativa viável. E até hoje eu sofro com isso.

A modernidade era dividida em: computador de torre versus computador deitado.

Um pequeno prolegômeno para situar a minha carreira de pirataria: a nova tecnologia me acompanha desde 0s 9 anos de idade. Fui caracterizado por isso como early adopter e innovator. A sede por novidade sempre me fez descobrir novos mundos.

Eu tinha um PC isolado em casa. Não existia internet. Não existia BBS. O DOS rodando como sistema operacional era, para mim, algo que qualquer pessoa tinha em meia-dúzia de disquetes em casa. De graça. Não passava pela minha cabeça que aquilo pudesse ser um software. Pago. “Quem cobraria por um S.O.?” pensava eu. “Olha, Windows 3.1!” “Já viu esse Aldus Photo Styler?” “Tem um melhor, mas ocupa 13 disquetes: Photoshop”.

Era sede de conhecimento. Era vontade de criar, de aprender, um mundo novo. Mais programas. Windows95 em inglês, uma semana depois de lançado nos Estados Unidos. 11 disquetes. “Lembre de copiar o primeiro, ele sempre grava o seu nome na hora da instalação”.

Opa. Então é isso?

Um sistema que trava a cópia. Comecei a entender. Proteção para o dono. Mas eu ganhava uma mesada que valia 1% do valor do produto. O dilema era grande. Apareceu um pirata comercial na cidade. Ele baixava tudo de uma BBS. Em São Paulo. Eram mais de 6 horas diárias, conectado por DDD. Sabe quanto isso custava por mês?

Nada.

Existia mouse na época. Mas era um periférico sem muita utilidade.

Aprendi o termo phreacker. Ele era um. Burlava o sistema de telefonia adulterando a central telefônica local e o sistema de conexão regional. Ou um orelhão com dois jacarés e uma resistência de 10k no notebook de tela mono de cristal líquido vermelho.

“Olha esse game novo da Lucas Arts. 22 disquetes, muito bom”. “Windows novo com disquete de 1.66MB você precisa formatar ele por alta densidade para conseguir copiar.”

O cara da Discolândia mixava fita cassete com dois toca-discos e canal cruzado. Ficava profissional. E não precisava comprar os 18 discos que compuseram a trilha, não é mesmo?

O Paraguai era ao lado. O Brasil era trancado. A alemaozada da colônia trazia novidades da Europa. O Lego era Hering-Rasti.

Phreacker novamente, agora para roubar internet RNP de faculdade, via grampo em orelhão. Não existia internet civil, amigo.

Engenharia social para roubar senha de professor. Agora sim, internet via modem e pulso único depois da meia noite.

Gravador de CD. MP3. Os primeiros filmes. Napster, Limewire, Audio Galaxy, Torrents. Relógio de pulso máquina Citizen fabricação Kazakh. Sim, aqueles putos da Baikonur Cosmodrome perderam o emprego com a queda do muro. Mas não perderam a precisão instrumental.


Foi uma dor comprar meu primeiro software. Era caro, estava disponível no site de piratas há 5 cliques.

Mas a sensação de usar uma licença válida sem ter que escutar aquele midi alucinado no crack de caveirinha de olho piscante era indescritível. Atualização que funciona, download sem stress, suporte e garantia.


Comprei um smartphone. Os joguinhos e apps eram baratos, 0.99. Gostava? Comprava. Foi uma escola. A mesma coisa com as músicas. menos de um dinheiro cada uma. E assim a minha coleção de 15 anos de garimpo de MP3 foi dando lugar ao preciosismo da legalidade.


A minha vida brasileira era uma fraude. Quase tudo era pirata, falsificado ou comprado com algum tipo de isenção tributária. A feira dos importados, o paraguaizinho, o camelódromo. Diferentes cidades, diferentes nomes, a mesma situação. Centros da mais pura pirataria, a foto da identidade da maioria dos brasileiros.

Eu era infestado, tomado e possuído por um pirata dos mais escusos. Meu porta CD era de mídias gravadas. Eu tinha impressora de CD para você ter ideia de quão sério era o sistema.


A pirataria afetava minha vida profissional. A ética era jogada no esgoto quando um diretor de arte pedia para eu reproduzir uma propaganda velha de anuário. Ou quando o cliente pedia um site exatamente igual ao que viu na gringa. A foto roubada do banco de imagens e a marca d´agua apagada depois. Tudo com o consentimento de quem tinha o dinheiro disponível.


Mudei para outro país. Vendi tudo o que tinha e recomecei do zero. Em um lugar onde a pirataria é velada e combatida na chinelada. Estava ferrado.

Comprei um computador novo, muito mais barato e acessível. Uma assinatura de filme por demanda não pesou o orçamento. A outra assinatura de música foi uma mão na roda. Ganhei um pacote pessoal da minha suíte preferida de programas.


Comecei a comprar em banco de imagens. Fontes. Scripts. Templates, músicas e royalties de trilhas sonoras.

Comprei um protetor de tela de $8. E foi o ápice da minha redenção. Confesso que procurei antes nos torrents. Mas até os torrents são bloqueados por aqui, precisam de VPN e mirror para não serem barrados.

Ou ser preso por pirataria.

Comecei a cansar dos produtos ‘segunda-linha’ e ‘similares’.

A vida no lado certo da fronteira das coisas originais é mais limitada e difícil. Mas a leveza e o conforto são indescritíveis. Hoje eu olho para o passado e tenho sentimentos contraditórios. Conheci muito de segurança de rede, internet. Farejava malware e crack viruento há milhas de distância. Minha base criativa veio de muito programa gráfico pirata. Aprendi 3d em programas que custavam mais do que um carro, na época.

É vergonhoso. E ao mesmo tempo interessante. Hoje é muito mais fácil se enquadrar na legalidade do que no passado de cidade de interior. O problema é a falta de limites que a curiosidade infanto-juvenil carrega. Essa, amigo, não tem fronteiras.

Nem um puto no bolso.