As 10 lembranças do passado que nunca esqueci.


Tenho a certeza de que todas as lembranças puras somem e tomam formas de contos de fábulas com o passar dos anos. Nossa cabeça é uma velha agoniada que transforma tudo que era horrível em heróico e o mais-ou-menos em beleza furacão.
E é por isso que escrever algumas das últimas lembranças puras que tenho de infância, antes que minhas idéias as apaguem por falta de uso, seria mais um becape seguro de idéias banais do que propriamente interesse em nossa roda de debates casuísticos. Segue uma lista singela das 10 primeiras. (É claro que tem umas muito mais mostrengas do que as relatadas abaixo, mas preciso recapitular o que era fraude e o que foi, de fato, genuíno).

Dia que o Tancredo morreu.

Sim, eu lembro disso. Lembro da barba do porta-voz da república Antonio Britto (que parecia o Rolo da Turma da Mônica) dando a noticia escarnecedora. Mais precisamente do momento em que um flash fotográfico pipocou na cara dele durante o “faleceu esta noite”. A lembrança mais longa foi no dia seguinte, durante o cortejo. Tocava Coração de Estudante, de Milton Nascimento, em uma repetição eterna. No canto da tela, uma tarja preta. Desde então essa música tem cara de caminhão de bombeiro com bandeira em cima. E eu ainda gosto de ouvir. Eu não entendia nada daquilo, tinha 5 ou 6 anos e o que eu conseguia discernir era apenas que o cara deveria ser importante pois tinha muita gente e muita gente triste no caminho.

Dia que levei um soco no nariz.

Era briga de colégio, intervalo. A outra parte era camaradinha repetente, maior e mais forte, de família pobre, filho da faxineira. Alguém aprontou com ele e por um erro de entendimento a bifa acertou em cheio meu nariz. A porrada foi tão certeira e forte que lembro até hoje das cores e dos formatos das estrelas que vi. Descobri que ele morreu cedo de morte matada. E que soco no nariz dói como sói.

Dia que perdi no Judô.

Era um campeonato de Judô, eu era maior e mais pesado que a molecada da minha idade. Inscreveram-me nos laranjas de 12 anos, os mais velhos. Levei uma sóva nas quartas-de-final e um gatame imobilizado que — putaqueleospariu — não tinha como me mexer. Camarada era de uma cidade vizinha e muito mais forte que eu. Nunca mais quis saber de luta.

Dia que bati a cabeça.

Sábado a tarde, estava andando de BMX em uma pista muito mal feita perto de casa. Inventei de saltar mais alto do que eu era acostumado. Bicicleta pra um lado, eu pro outro. Capacete só era obrigatório em F1 ou coisas mais rápidas. Caí de costas e bati forte a nuca no chão de terra. Levei uns 3 dias para assimilar o que tinha acontecido. O mais interessante foi que eu entrei em modo de segurança com portas em automático. Não lembro muito o que aconteceu durante aquele dia. Apenas lembro que tomei banho e jantei. Tempos depois descobri que saí em uma foto de amigos, jantei, tomei banho, fui em festa-da-vassoura, dancei com uma cocotinha que eu gostava e voltei pra casa. Tudo em amnésia geral.

Dia que o Senna morreu.

Outra coisa que não dei a devida atenção. Estava em almoço na casa de parentes, Senna bateu forte e logo em seguida a cabeça pro lado. Um espasmo bem sutil, arco-reflexo de alguma coisa muito séria e logo percebi que o cara não estava mais ali. Eu não gostava mais de F1, e acho que a culpa foi do Senna quando saiu da McLaren para a Williams. Eu odiava a Williams. Gostava da Marlboro McLaren. A Williams estava, naquela temporada, rebolando com umas ideias tecnológicas idiotas.

Propaganda política das eleições municipais de 1985.

Eu acordava muito cedo para assistir Telecurso e Bom-dia Paraná, na televisão. Sim, eu era uma criança anormal e com gosto estranho. Nessa época foi a primeira vez que passava propaganda eleitoral regional gratuita na TV. Minha cidade era muito interiorana e ver pessoas, videos da cidade e os problemas locais enaltecidos por promessas políticas me fez viciar em nomes e partidos de candidatos a vereadores e prefeitos da época.

Dia em que eu empurrei meu primo em uma porta de vidro.

Era uma descida leve, com uma porta de vidro no final. Meu primo passou correndo, eu aproveitei o embalo e dei um empurrão para ele acelerar mais. Perdeu os freios e bateu de cabeça na porta. Como a coisa não era de vidro temperado ou laminado, ele ficou preso nos pedaços de vidros. Claro que eu sumi da cena do crime em 2,4 segundos.

Dia em que eu estraguei o tenis Rebook importado da menina bonitinha do colégio.

Ela era rica e tinha recém voltado dos Estados Unidos. Ganhei dela uma caneta Mitsubishi tinteiro. Canetas eram proibidas naquelas turmas mais novas. Apenas lápis. Eu era da turma das drogas ilegais das canetas 4 cores. Durante uma aula qualquer chata pra caramba eu comecei a girar a caneta tinteiro em um clips desmontado. A força centrífuga do giro frenético fez com que a tinta vazasse pela ponta e respingasse no tênis branco e novo e de marca e de couro. Parecia um dálmata. Eu vi a merda toda, escondi a caneta e ela jamais desconfiou como aquilo foi acontecer. Mea Culpa, fia.

O Porschinho REI, prata, miniatura 1:43.

Dia em que quebrei o recorde de quebrar brinquedo.

Eu era uma criança encapetada. Sério, não sei como meus pais me aguentavam. Eu queria um caminhão de lixo ou algum brinquedo bacana, meu pai me deu um Porschinho prata da Miniaturas REI, que vinha em uma caixinha de plastico transparente. Eu fiquei meio atormentado da cabeça que o presente era muito diferente do caminhão de lixo. Abri a caixinha, peguei o carrinho e joguei pra cima. O bicho voou uns 45 metros em parábola perfeita, quase entrou em órbita de transferência de Hohmann e reentrou na atmosfera partindo-se no asfalto, entortando a lata, torcendo o chassis e arranhando 38% da pintura. Quando vi a merda que tinha feito o arrependimento bateu forte e eu tentei arrumar o estrago com um alicate. Ficou até que apresentável e o carrinho se tornou meu favorito. Mas o sentimento de perda total que me acometeu foi terrível por anos.

Dia em que eu furei um isqueiro.

Não tinha muita coisa interessante para fazer, peguei um alicate, um alfinete e um isqueiro. Acendi o isqueiro, segurei com o alicate o alfinete na chama, até o bichão ficar incandescente. Simplesmente furei o isqueiro com este alfinete incandescente. Uma labareda de dois metros surgiu ao lado oposto do furo. Eu podia ter incinerado minha cabeça. O fogo foi pro outro lado. Desde aquele dia eu percebi que não se deve furar isqueiros com alfinetes incandescentes.