Casa 44.

Eu e uma pena, sim.


A velha casa da ladeira de pedras, número 44, era um retrato fidedigno da vida que não fluía na cidadela. Tinha calçamento irregular demais para o flanar da liberdade. A parede exibia tintas vermelhas de várias tonalidades e gerações que, pintadas umas sobre as outras, num estrupício relaxo, criaram bolhas e tumores texturados que tentavam conter as rachaduras sem base.

Janelas de madeirame empenado. A primeira, mais nova, não abria desde que fôra instalada em 72. Pedreiro escroque duma figa. A segunda abria. Abria e era usada pela senhorinha ridícula que ali pairava, plantada por horas, a reclamar da morosidade do vento que não mais assoprava como deveria.

O Tião da barbearia do final da rua, mentiroso que só, dizia que era ela a inspiradora da palavra peitoril, já que as muxibas caídas esparramavam-se por toda a madeira da balaustrada, realçando mais ainda as redondices e suas infindáveis dobras sebentas.

Nada na cidade tinha mais jeito. A diferença de temperatura média caía de maneira constante e chegou ao ponto em que a palavra hermética começava a se incorporar em artigo de previsão do tempo e arranjo climático. Assim não mais existia ali conceito de calor ou frio; o vento — como a velha reclamou — de fato parara de assobiar há tempos. Nem uma brisa, quem diria. Nuvens? Só carneirinhos de passagem e sem funções pluviais que as valessem.

Os velhos não geraram novos rebentos. O plantel dos chucros e irrequietos varrões dali se escafederam para novas paragens. O Tião bem que alertara: aquela nota de 10 com um bigodinho no buço da princesa passou em sua mão por mais de 4 vezes naquela semana.


Ali nos fundos da 44, quintal de pedra e cimento queimado. Não, não esqueço a melancolia dos atos vagos e mecânicos e inertes vascolejando velhos lembretes e lembretes ruidosos. Lembra? Era até o album de cromos. Ah, os cromos, como eram difíceis de retirar o auto-colante! E colava-os em seu caderno. Adorava te ver colando cromos, ornamentando-os em volta com hidrocores e amores, traços incontritos, por vezes tímidos. Por que não?

O porão era de porta estreita. Emperrada desde sempre aquela entrada do porão. Briquedos velhos. Um toca-discos com duas caixas de som. Discos empenados, cheiro de mofo, umas aranhas que não tenho ideia de como sobreviviam sem comida aparente. Teias velhas. Relaxadas.

O porão mostrou-me onde guardar as velhas e boas lembranças.

Melancolia da vida, ó, segura em uma mão trôpega e senil as lembranças não tão boas. Se boas fossem, não estariam em um porão. Ah, o porão que agora mostra claramente que lembranças chinfrins ainda não se descartam. Guardemo-as por dó. Descartar seria amainar a vida com novos disparates.

Aquele velho porão de porta torta, emperrada de sentimentos. Aqui. Aí.

O disco do Miles Davis. Kind of Blue. Ao lado de um antigo 45 rotações do Smetana. Eu gostava dos dois. Gostava do ritmo, do balanço suave das composições. Eu nem queria saber se era jazz ou clássico. Era a música.

Mas nunca pude gostar, assim, explicitamente. Essas músicas não podiam sair do porão da porta estreita. Meus amigos não seriam mais meus amigos. Minha vida social ruiria. Minha capacidade cultural seria queimada em fogueira pública.

O velho sou eu, desde muito jovem. Gostava do cinema alternativo mais inteligente. Da música complexa e arranjada. Do carro clássico. Aspirado, nada de turbina. Cheiro do banho e não do perfume. Revista velha, livro bolorento, mulher de corpo de 28, pinga com limão e mel. O bar do Tino com os velhos da bocha e do bolão, o centro de tradições com gaúchos pilchados e suas facas na cinta. Costela, uma boa ripa. O corte de cabelo do Tião com tesoura, navalha afiada no couro e álcool para doer o escalpo depois.

Minha vida tornou-se complexa, mais do que deveria. Seguindo por uma rota alternativa e muito estranha. Meus amigos ficaram pelo caminho, um a um, colocando raízes em lugares seguros.

Como se não quisessem mais saber de novas experimentações, não sei.


Ainda os tenho em minhas redes sociais. Sou um traidor no fio mais nojento da palavra. Resmungo toda vez que escrevem. Colocam fotos. Músicas, memes, joguinhos idiotas e testes ridículos. Eu entendo. E me envergonho do crápula que me tornei.

O texto vem com erro de gramática. A foto continua sem foco ou com horizonte torto. Eles são felizes, simples. Eu fui longe demais? Teria como voltar?

E longe demais em qualquer aspecto: novos idiomas, novas culturas, mais de doze mil milhas nos separam. Estou a cinco horas de diferença, isso é mais do que simples meridianos.

O velho porão ficou menor do que eu lembrava.

A rua estreitou.

Minha vida faliu.

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