O Museu Nacional ou: a vida não pára.

Eu vejo o futuro repetir o passado;
Eu vejo um museu de grandes novidades.
O tempo não pára.(Cazuza)
O fogo ardeu a história. Só isto já bastaria; só isso já bastaria para contar uma tragédia completa nos micro-contos de 6 palavras de Hemingway.
A caça aos responsáveis é o sentimento mais primitivo e primordial, urge, a unha cheia de sangue seco da dilapidação dos fascínoras, o clamor pela justiça, a voz rouca de tanto gritar palavras de ordem na manifestação.
Mas a realidade é dura. A história é efêmera. Alexandria ardeu. Roma ardeu, Windsor ardeu, Aleppo virou pó, o museu de Mosul foi destruído por ordem divina, na marretada.
As guerras são as referências precisas para a destruição cirúrgica da história.
Não, melhor: a humanidade é a melhor referência para criar e destruir história. A essência é esta mesma, destruição.
Não existe nada que se possa fazer. Suas fotos serão destruídas, um dia. O becape mal feito, a pasta zipada com zero arquivos dentro. Um celular roubado, com todas o conteúdo lá dentro. Seu computador que morreu. Sua memória esquecida. Seu desespero, o ódio, o aceite.
As memórias são redutos de erros e paralaxes distorcidas pelo tempo.
O nome na pedra, o reconhecimento póstumo, o desespero de tentar deixar uma marca, um arranhão, uma cicatriz nessa linha dura e repelente. O nome conhecido, o cientista do passado, o descobridor de alguma coisa incoerente e fascinante.
A agonia de tentar uma pequena respirada no momento de se afogar em um rio caudaloso, a tentativa de barganhar um ultimo trisco de vida.
A culpa não foi ‘deles’. A culpa não foi dos vermelhos, nem dos políticos, nem dos gestores, dos hidrantes, dos bombeiros, dos maconheiros. Não há a culpa, infelizmente.
A perda é imensurável, não há discussão aqui. A memória foi dilacerada com uma violência que até agora me é sentida intensamente na garganta, quase o mesmo nojo de um luto. Eu sinto uma tristeza tão grande porque é um pedaço delicado e frágil, único e complexo de entendimento e compreensão que cessa e silencia para sempre.
Mas nada vai mudar a história, e isso é o segredo de levantar do chão estéril e se recompor como um mendigo trôpego e bêbedo que acabara de apanhar.
A história é dinâmica, queira ou não. A vida é uma sequência de desgraças de uma constância quase cíclica. Podem dobrar, apagar, remoer. Podem extinguir tribos com suas histórias apenas contadas, podem derreter o ouro que era artefato religioso sul-americano, delicado, artesania da melhor qualidade e transformar em um lingote liso e denso.
A vida não pára.
A história esquece; e será esquecida.
E é aqui que mora a beleza de compreender essa sutileza quase gravitacional que é a efemeridade humana.
