Uma distópica utopia relativa

A quebra de uma mente bicameral

Angga Tantama

A filosofia da mente e da sociedade é bem discutida em diversas obras, de fato é um assunto fascinante onde alguns autores se sobresaem, como Julian Jaynes, não por apenas sua onírica hipótese a respeito da consciência, mas também pela vida que o mesmo levava, nesse artigo deixemos a vida pessoal de lado e coloquemos o foco em sua teoria :

A hipótese de Jaynes é que, se numa linguagem não existe a palavra “ Eu ” ( E seus pronomes ), seus falantes não terão uma mente ou consciência no sentido em que nós a temos.

Nesse ponto partimos da fé, pois sem ‘ consciência ‘ se supunha que os ‘ Deuses ‘ guiavam as pessoas através de vozes em suas mentes, e com essas ‘ assombrações ‘ em suas mentes a vida de tais pessoas seguiam seu fluxo normalmente até seu perecer.

O porque de estar falando disso é que recentemente tivemos um bom exemplo do que seria uma sociedade distópica e obtenção de auto descobrimento, estou falando da série West World, essa série conta a história de um parque onde as pessoas vão passar as ferias fazendo tudo o que elas quiserem com robôs criados com o intuito de sobrepor a humanidade para sofrerem atrocidades e satisfazerem os prazeres humanos; a auto descoberta dos robôs sobre o que eles são e com que proposito foram criados é como uma analogia ao colapso da mente bicameral, por mais que os motivos se divergem entre a série e a antítese em questão.

Opening — West World

Em uma frase belíssima do personagem Robert Ford ( Referência ao Robert Ford — acho ) é dito :

Não podemos definir a consciência porque a consciência não existe. Os humanos acham que há algo de especial na forma como entendemos o mundo, e ainda assim vivemos em círculos, tão apertados e fechados quanto os anfitriões, raramente questionando nossas escolhas, satisfeitos, em sua maior parte, a sermos informados sobre o que fazer em seguida.

Ainda que seja apenas uma série a mesma ilustra bem a ‘ realidade ‘, digo isso por frases como essa acima fazerem alusões a pensamentos escritos por autores no ‘ mundo real ‘, exemplo :

O mistério das coisas, onde está ele ? 
Onde está ele que não aparece 
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério ? 
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore ? 
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso ? 
Sempre que olho para as cousas e penso no que os 
homens pensam delas, 
Rio como um regato que soa fresco numa pedra. 
Porque o único sentido oculto das cousas 
É elas não terem sentido oculto nenhum, 
É mais estranho do que todas as estranhezas 
E do que os sonhos de todos os poetas 
E os pensamentos de todos os filósofos, 
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser 
E não haja nada que compreender. 
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos : — 
As cousas não têm significação : têm existência. 
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

Poema de Alberto Caeiro, personagem ficcional — Heterónimo de Fernando Pessoa.

V For Vendetta

Falar massivamente sobre a mente e a consciência em um artigo com título de ‘ distopia ‘ é sem sentido dependendo do ponto de vista e subjetividade do leitor, porém isso se faz necessário em minha visão para criarmos nossos conflitos internos e fomentar as ideias para a construção de algo melhor ou simplesmente o ato de pensar muito, partimos à distopia então.

Se uma utopia é uma civilização ideal que é praticamente irrealizável ( Aquela que atingiu o estado da arte por assim dizer ), uma distopia é o oposto, é como uma ‘ anti-utopia ‘, a base está no pensamento de uma sociedade controlada por um estado inchado de extrema opressão que gera revolta nos indivíduos, um bom exemplo simples para o entendimento do que de fato é uma distopia pode ser visto no filme V For Vendetta ( V De Vingança ), que trouxe de vez a máscara de Guy Fawkes criada por Frank Miller na hq de mesmo nome como símbolo de anarquia, símbolo esse que nem todos conhecem as origens mas deveriam já que é uma história fascinante a Conspiração da Pólvora. — Remember

Akira

Muitos veem uma distopia incrível em um futuro não muito distante, acredito que isso se deve a cultura ( Filmes, séries, livros … ) que criou um conceito, esse conceito é visto em filmes como Akira, um clássico distópico, futurista e sci-fi de 1988 que mostra a ‘ revolução ‘ de um dos membros fraco que obtém poder; contra o governo, contra amigos, contra tudo ele vai e então nós vem a mente : ‘ Será que ele realmente faz alguma noção do que o rodeia ?! ‘, nós, nós temos alguma noção ?!

Ainda que não aparente, o mesmo trata momentaneamente de problemas políticos e conflitos gerados por atitudes tomadas posteriormente sem os devidos cuidados, isso lembra muito as guerras que vemos ao estudar história, não ?!

I Will Be Back

Posso dar diversos outros exemplos como Laranja Mecânica, Blade Runner, Matrix e um que tem um ponto de vista bem legal Distrito 8, porém todos seguem o Monomito ( Ou quase todos — e as vezes um monomito invertido ), nossa hipotética distopia poderia ser tratada de diversos pontos de vista sobre diversos temas diferentes além de objetividades / subjetividades diferentes, sendo assim acredito que grande parte da ideia central foi passada, caso você tenha lido até aqui indico que leia também Éden, essa é uma leitura indescritível, pequena sinopse :

Eden é sobre um homem tentando sobreviver, tanto física quanto moralmente num mundo que é muito complexo para o simples “ preto no branco ”.

Prometo que está acabando, fica também a dica de um vídeo do canal Quadro Em Branco que passa uma visão de conceitos diferentes a respeito de distopias tratando até mesmo de equidade, hierarquia criada para manter o poder dos que já estavam no topo e dentre outros temas que contam com um ótimo roteiro e edição.

Distopias | 1984, Fahrenheit 451 e Admirável Mundo Novo

A resposta para qualquer dúvida é 42, obrigado por ter lido e até a próxima.