Entre citados e investigados, salvaram-se todos?

A divulgação das delações de executivos da Odebrecht no âmbito da operação Lava-Jato mostrou como funciona a política brasileira. Para quem ainda não percebeu, a corrupção no Brasil não é apenas uma questão moral, feita por “bandidos” eleitos por pessoas que “não sabem votar”. Na verdade, temos um sistema político inteiramente feito para que a corrupção seja norma, para que interesses privados sejam atendidos por entes públicos.

Todos aqueles que se beneficiaram de propinas para enriquecimento ilícito e/ou financiamento de campanha devem ser punidos, é claro. Mas mesmo que a nossa justiça aja com rapidez e aplique punições exemplares para políticos, empresas, executivos e intermediários, isto não significa que estamos modificando este sistema político viciado.

O interesse privado pode influenciar os agentes públicos de diversas formas. Inclusive, nem todas são maléficas e ilegais. Um bom exemplo é quando empresas fazem lobby junto ao governo para que este mantenha políticas econômicas de pleno emprego e aumento contínuo e estável da renda das famílias.

No clássico “O Novo Estado Industrial”, o escritor norte-americano John Kenneth Galbraith mostra como as empresas mudaram a sua atuação ao longo do século XX, de “maximizadoras de lucro” para “minimizadoras de risco”, de forma que tenham sempre uma demanda previsível para seus novos produtos e serviços, que precisam de investimentos cada vez maiores para serem lançados e mantidos em operação.

O volume de recursos investido é tão grande que os grandes conglomerados não podem se dar ao luxo de descobrir no meio do caminho que não há demanda suficiente. Algumas medidas devem ser tomadas: mirando no consumidor, propaganda & marketing ganharam um papel central nos negócios. Mas, dependendo do mercado em que atuam, as empresas precisarão influenciar as políticas públicas, de maneira lícita ou ilícita, para que seus investimentos não caiam por terra. É uma decisão racional de um planejador privado.

Com a concentração cada vez maior do mercado em poucas companhias, o impacto deste tipo de ação também aumenta; afinal, meia dúzia de empreiteiras bilionárias conseguem manobrar para que o governo atue conforme o seus interesses de forma muito mais fácil do que milhares de pequenos construtores.

Desta forma, é possível entender o sistema político brasileiro como parte deste planejamento minimizador de risco de agentes privados, tornando a demanda por seus produtos e serviços previsível e até criando novas oportunidades de negócio. Os nossos políticos estão preparados para receber “incentivos”, e atuar de acordo com o interesse desses incentivadores, embolsando ou não uma fração desses incentivos. Por outro lado, o dinheiro de propinas e caixa 2 ajuda estes políticos e partidos a se manterem no poder.

Do lado das empresas, há a garantia de que seus negócios não serão afetados pelo jogo político, mesmo que isso diminua o seu lucro em alguns milhões e bilhões destinados a propinas e financiamentos de campanha. Pode haver troca de nomes e ideologias no governo (não se enganem, o fato de haver corrupção não quer dizer que não existe ideologia na política brasileira, vejam os governos Dilma e Temer), mas as ações governamentais estarão de acordo com o que essas empresas querem.

Falando agora de forma menos genérica, está claro que o atual governo está envolvido até o pescoço com a Lava-Jato, e que muitas de suas ações foram feitas para tentar bloquear as investigações. A estratégia de Temer para se manter no poder com no mínimo uma “tolerância popular” é argumentar que o país “não pode parar”, e que a crise econômica pode ser agravada com a instabilidade política.

Certamente o empresariado nacional apóia este argumento, porque precisa, de fato, de estabilidade e concorda com as medidas que supostamente vão acelerar o crescimento econômico e tornar seus negócios mais lucrativos. Entretanto, uma parte deste empresariado também tem o rabo preso, e vê em Temer a melhor chance de que não se descubram seus casos de corrupção.

Ainda existe muita lama: basta pensar na quantidade de empresas que precisaram de incentivos e desonerações fiscais, acobertaram irregularidades trabalhistas e/ou ambientais, ganharam concorrências e licitações públicas, entre outras situações que podem gerar algum tipo de favorecimento.

Com a revelação das delações da Odebrecht, podemos afirmar que apoiar o governo Temer hoje é igual a colocar um suposto crescimento econômico acima do combate à corrupção e da melhoria do sistema político brasileiro. Não há mais meio-termo. Do PT ao PSDB, todos querem a manutenção de Temer, não importa o que digam para seus militantes.

A saída é pressionar por medidas que atuem para prevenir que agentes públicos favoreçam interesses específicos durante os seus mandatos; o atual governo e os parlamentares não vão atuar por essa causa de forma espontânea. Medidas que facilitem a investigação e a punição destes casos são bem-vindas, mas insuficientes se o sistema político é moldado para que este tipo de situação ocorra. Não caiam no falso dilema entre estatismo e privatização: a corrupção pode ocorrer e ocorre nas duas circunstâncias.

No entanto, sou um pessimista. Acredito que vamos perder esta oportunidade de mudar o nosso sistema político. A história do Brasil é uma história de grandes acordos. Quando o calo aperta, cansamos da confusão e preferimos manter as coisas como estão do que passar por uma grande ruptura. Foi assim com a Independência, com o fim da escravidão, com a República, com o fim da ditadura militar.

Para fazer um exercício de futurologia, acredito que Temer chegará ao final do mandato sem maiores pressões populares, com este argumento de que o Brasil “não pode parar”, e suas medidas econômicas serão parcial ou totalmente implantadas, pois o Zeitgeist brasileiro está ao seu lado, a princípio. Em 2018, será eleito um candidato que não foi envolvido em escândalos e tem discurso apolítico, como está em voga atualmente, mas que nos bastidores é totalmente relacionado com toda a classe política e tem ótimo trânsito entre os grandes empresários brasileiros. Sua missão será manter tudo como está, num grande acordo nacional. Acho que vocês adivinharam em quem estou pensando.

Kadu Schad