O populismo de João Dória

Dia 2 de Janeiro de 2017. João Dória, novo prefeito de São Paulo, se veste de gari para varrer a Avenida 9 de Julho. Acompanhado de seus assessores, ele lança um de seus principais programas de governo, o Cidade Linda. Este programa consiste em limpar e “embelezar” as ruas de São Paulo.

Alguns críticos já se apressaram em apontar ato falho na escolha de um local nobre da cidade para o primeiro dia de trabalhos. Este é um erro comum de oposição. O mesmo erro foi cometido na campanha eleitoral, ao se considerar Dória um coxinha, que faz cara feia ao tomar café num boteco. Pode ser, mas também é um experiente apresentador de TV, um empresário que teve a habilidade de unir interesses de poderosos políticos e grandes empresários do país, e que possui fortes conexões na política nacional, apesar da sua campanha pregar que era um candidato de fora da política. Sabe ser carismático, ao contrário da imagem pintada por seus opositores. Entender isso é fundamental para quem quer combatê-lo.

Voltando à avenida Nove de Julho: o seu antigo e famoso túnel separa dois mundos. A porção após a avenida Paulista atravessa, de fato, um dos locais mais nobres da cidade. A parte da avenida que está no centro e o seu entorno, no entanto, é um microcosmo da cidade. Possui sim equipamentos de elite (Fundação Getúlio Vargas, Hospital Sírio-Libanês, a sede da Fecomércio), mas também muitas residências de classe média, edifícios abandonados ou ocupados por movimentos de Sem-Teto, muitos moradores de rua, vida noturna hipster (Mirante 9 de Julho, Red Bull Station), vida noturna popular (Vai-Vai, clubes de forró) e vida noturna gay na rua Álvaro de Carvalho. É cortada por um corredor de ônibus e receberá uma estação de metrô num futuro muito, muito distante.

Esta parte da avenida foi construída por cima do córrego do Saracura, e, muito por conta disso, alagamentos são comuns em dias de chuva forte. A via começa num terminal de ônibus, é cortada por várias pontes, tem um viaduto, que lembra um mini-Minhocão, e chega num túnel, que cruza por baixo a avenida Paulista. Esta paisagem me lembra muito a cidade do filme Metrópolis, que batiza este blog.

Cena do filme Metrópolis, de Fritz Lang (1927)

Portanto, questionar a avenida 9 de Julho como o ponto de partida do Cidade Linda porque é um local nobre é entrar numa polêmica besta. Um outro questionamento sobre a escolha seria o de que este é EXATAMENTE o caminho que Dória faz de automóvel para sair de sua casa até a prefeitura. Uma medida imediata de sua gestão foi liberar a passagem de carros particulares no viaduto da 9 de Julho, antes restrito a ônibus e táxis. Espertinho.

Não que isto seja grande coisa, também. Mas é simbólico sobre um aspecto que foi pouco questionado na campanha e após a vitória de Dória: o enorme conflito de interesses entre seus negócios e o cargo que agora ocupa. Sua empresa basicamente promove eventos e encontros de executivos, às vezes com participação de políticos de várias esferas. Um empresário que basicamente ajuda outros empresários a fazerem negócios. Quais as garantias, por parte de Dória e por parte do nosso arranjo burocrático, de que ele não utilizará seu posto na Prefeitura de São Paulo para continuar ajudando empresários a fazerem negócios, afetando o interesse público?

Analisando agora o Cidade Linda de outra forma: por um lado, as ruas de São Paulo são mal cuidadas e sujas, há muito tempo; por outro, a cidade tem prioridades mais urgentes, e a forma como esta limpeza das ruas é feita pode ser descuidada, para dizer o mínimo, apagando arte urbana e causando uma migração forçada de moradores de rua. Não é um projeto novo, porém. Marta Suplicy e Gilberto Kassab lideraram ações semelhantes, que não tiveram continuidade.

Ao ser questionado pela imprensa sobre qual era a garantia de continuidade do Cidade Linda, ele respondeu que “a garantia é o prefeito”. Nesta declaração, fica clara a ideia do programa: promover a imagem do prefeito como um gestor trabalhador, um zelador das ruas e do povo. Com esta resposta, ele confessa, também, que esta não é uma política de Estado, incorporada à máquina pública paulistana, mas apenas um projeto pessoal. Se o próximo prefeito não se interessar pelo projeto, ele será encerrado e fica tudo por isso mesmo. À princípio, deu certo: no próprio dia 2, ouvi de um cobrador de ônibus: “o cara já está trabalhando!” Já a figura de gari varrendo as ruas é claramente inspirada na “vassourinha contra a corrupção” do populista Jânio Quadros.

Ao ler as promessas de Dória para o seu mandato, poucas são destinadas a resolver os grandes problemas de São Paulo, aqueles que exigem planos de longo prazo, debate, novas ideias e coragem política. A única proposta neste sentido é a de descentralização das subprefeituras. Não vemos ideias de Dória para o futuro do Minhocão, o futuro das marginais, a descentralização dos empregos na cidade, a preparação da metrópole e de seus cidadãos para um futuro cada vez mais digital e tecnológico, a integração urbana com as outras cidades da região metropolitana, a transformação do centro em local melhor para se estar e morar e a transformação dos antigos bairros industriais de acordo com as melhores práticas urbanas.

Isto é natural. Como um bom líder populista, Dória ignorará estas questões por 4 anos, sem comprar polêmicas (necessárias, eu diria) e embarcar em grandes projetos. Como um bom líder populista, ele passa por cima de decisões de órgãos técnicos para atender a anseios de uma parte do eleitorado, ao aumentar o limite de velocidade em algumas vias (em decisão já questionada pela justiça). Como um bom líder populista, ele fica à vontade para entrar em contradições ideológicas, ao defender privatizações e controle de gastos estatais, ao mesmo tempo em que congela os preços das passagens de ônibus, o que, na prática, torna o sistema de transportes mais estatal e aumenta os gastos públicos.

E, principalmente, como um bom líder populista, ele associa todas as medidas que toma à sua figura, atuando para deixar uma imagem de homem trabalhador para a posteridade, para eleger seu padrinho político Geraldo Alckmin como presidente da República em 2018, e quem sabe até para eleger o trapalhão Alexandre de Moraes como governador do Estado. Enquanto isso, a cidade adia por 4 anos a resolução de seus problemas mais difíceis de serem atacados, tornando São Paulo ainda mais atrasada.

No próximo texto, abordarei este atraso de São Paulo.

Escrito por Kadu Schad