HOUSTON, WE HAVE A PROBLEM
‘’Sua sombra é o reverso de sua claridade. Sua fumaça provém da sua chama. Seu abismo é a condição de sua altura’’ — Victor Hugo, William Shakespeare.
- Eu não consigo mais escrever.
Olhou para as mãos. Sentiu suas veias pulsarem.
- Mesmo sem vontade criei metas, prazos. Tentei de tudo. Nove meses em vão. É como se eu estivesse em órbita, na inércia do vazio. E pra eu voltar pra atmosfera, vou precisar atravessar as quatro dimensões.
- Você acredita em inspiração? — a psicóloga questiona. Esbanjando superioridade com sua vestimenta formal e olhar profundo.
- Ora, mas é claro. Veemente. Minha inspiração foi quebrada, como o reflexo da lua se quebra na agitação das ondas do mar. Um bloqueio que gera fraqueza e fraqueza intensifica o medo. É um ciclo.
- Medo? — ela pergunta.
- Sim.
- Ah sim, creio que seja uma autocrítica muito severa. Você se sabota. — respondeu.
- A sombra da consciência me deixa acorrentado. Eclipsou-me. Eu tenho certeza que não sou bom no que faço.
- E você irá ceder à irredutível sensação de ineficácia?
- Talvez.
- E isso vai fazer com que se distancie da sua arte. — ponderou — Sei que todas as fibras, células, moléculas e tristezas que habitam no seu corpo lhe dizem que és incapaz, mas talvez elas estejam erradas.
- É provável que eu desista.
- E o que acha que vai acontecer depois de desistir? — a psicóloga, por fim, pergunta.
- Isso me tiraria da tristeza mais rápido.
- É, você tem um problema.
