O DIA EM QUE ELA FOI EMBORA

Um casal.

Ela, se chama Raíssa.

Ele, se chama Pedro.

Uma noite e uma garrafa de vinho é o necessário para destruir um relacionamento agoniante e fantasioso, que durou mais de dez anos.


— Você se inspirou tanto em mim, nas suas maiores obras e agora, que estamos em ruínas coloca a culpa em mim. — Raíssa diz.

— Nunca disse que a culpa foi sua. — Pedro diz.

— O seu olhar me diz isso. — Raíssa retruca.

— Você não pode tirar conclusões por olhares, Raíssa. — Pedro diz.

— Não foi isso que você me disse alguns anos atrás quando falou que se apaixonou pelo meu olhar. — Raíssa diz.

— São duas coisas muito diferentes. — Pedro diz.

— Qual a diferença? — Raíssa pergunta.

— Você ainda não era a minha musa. — Pedro responde.

Pedro pega sua taça de vinho e diz:

— Vamos supor que essa taça seja eu, quando ela foi feita, não fazia ideia de sua importância, ao servir de suporte para líquidos, vulgo, você, Raíssa.

— Acontece, Pedro, que eu sou a sua inspiração ultrapassada, falida, sou o vinho barato que te consome e mata por dentro, e que te mantém psicologicamente estável. — Raíssa diz.

— Você realmente não passa disso, um apoio e não uma necessidade. — Pedro diz.

Raíssa suspira e senta no sofá.

— Eu sempre soube que essa besteira de ‘’Musa da obra literária’’ iria nos causar problema em algum momento. Sempre causou, desde o começo, com ás pessoas me perguntando se, assim como a Mirela, passei a minha adolescência inteira internada ou se eu realmente — silêncio — fiquei em um dilema interminável se eu iria me matar ou não pelo falecimento dos meus pais. Quinze malditos capítulos e em nenhum você deixou a Mirela se entender. Você a controlou, igual vem há anos me controlando, e olha, ela não aguentou, por que eu teria que aguentar? — Raíssa pergunta.

— Porque você precisa de mim mais do que eu preciso de você… a Mirela, por mais confusa que fosse, instável emocionalmente, cheia de frustrações, nunca precisou de um centavo emprestado de alguém, um lugar para dormir, um prato de comida para saciar a fome. — Pedro responde, sempre com um tom de voz sério e expressão fria.

Silêncio.

Pedro levanta da poltrona em que estava, vai até a mesa pegar a garrafa de vinho e completa a taça, em seguida caminha até a janela da sala do apartamento, pensativo, olha firmemente para a Raíssa e fala:

— Você é igual minhas personagens, sem eu, você não existe.

Raíssa levanta do sofá, se direciona até a escrivaninha mais próxima, abre uma das gavetas, pega uma folha em branco e uma caneta. Caminha até chegar ao lado de Pedro, e em uma mesa próxima a ele, ela diz:

— Escreva uma crônica que tenha uma personagem feminina, mas que não tenha as mesmas opiniões, os mesmos erros, os mesmos trejeitos, a mesma aparência — pausa, com toda a sua força bate a folha e a caneta na mesa, ecoando um barulho — que eu.

Pedro, ofegante, fixa o olhar na folha, estático.

— Um mísero parágrafo descritivo, Pedro. — Raíssa insiste.

Ainda estático e ofegante, Pedro não expressa nenhum tipo de iniciativa ou reação. Raíssa dá uma risada forçada e diz:

— Foi o que eu imaginei.

Raíssa começa a andar pela sala, ainda rindo, diz:

— Meu Deus! Que tipo de escritor é você, Pedro?! Bebe sempre a criatividade da mesma fonte há mais de dez anos e é sempre a mesma história repetitiva e saturada!

Raíssa começa a gargalhar. Pedro começa a ranger os dentes de fúria enquanto a observa. Em meio ao riso, Raíssa diz com tom de voz rígido:

— Ah sim! Mas é óbvio. Você não é um escritor — se aproxima de Pedro, ao lado do seu ouvido e sussurra — você é uma fraude.

Com muita força Pedro a pega pelo pescoço usando a mão direita. Raíssa consegue alcançar a folha em branco na mesa, levanta ao lado de seu rosto e diz, com a voz falhando por conta da dificuldade de respirar:

— A folha em branco comprovou isso.

Pedro tira a mão do pescoço da Raíssa, vira de costas para a mesma, caminhando até a janela. Raíssa ainda com a voz falha, tendo dificuldade para retomar a respiração, diz:

— Você… que se torna absolutamente nada sem mim.

Pedro vai até a garrafa de vinho e completa a taça. Com um caminhar agitado e movimentos acelerados, Raíssa se desloca até a grande prateleira de livros da sala, ela pega três livros, um fino, outro com um maior número de páginas e por último outro fino, ela os observa por alguns segundos, levanta os dois livros finos, mostrando para o Pedro e diz:

— Isso aqui também comprova!! — ela joga os dois livros no sofá, pega o terceiro, o maior e arremessa com força no peitoral do Pedro.

Ele se contorce, olha para a capa e em seguida pega o livro caído, com uma leve risada, ele diz:

— Meu maior e primeiro sucesso.

— Vulgo, o pesadelo e torturante história da minha adolescência! — diz Raíssa com a voz trêmula e lágrimas escorrendo pelo seu rosto — dez… dez anos sugando minha vida, me consumindo, analisando cada movimento meu, dez anos usufruindo da minha fraqueza sentimental, trocando apenas os nomes e locais diferentes pra conseguir terminar suas histórias decadentes, assim como eu.

— As pessoas gostam de histórias decadentes. — Pedro diz, com muita frieza.

Raíssa pega seu maço de cigarros e acende um deles, apoiada na janela, coloca uma das mãos na cabeça e fala:

— Por que eu fui me apaixonar por você?

Silêncio.

Depois de longos tragos, Raíssa quebra o silêncio:

— Você só me usou, Pedro, desde o começo. A minha vida é um clichê mal escrito igual ás suas histórias.

Pedro mais uma vez completa a taça com vinho, vira de costas para a Raíssa, de uma só vez toma todo o vinho e sussurra, pausadamente com os olhos fechados:

— Eu preciso de uma história.

Raíssa não o escutou, Pedro completa novamente a taça de vinho, olha para Raíssa e diz:

— Nós estamos quebrados.

Raíssa joga a bituca do cigarro no cinzeiro, caminha até a mesa que tem um retrato dos dois, ela observa, e diz olhando para ele:

— Sempre estivemos.

Raíssa sai da sala sem olhar para Pedro, no corredor do apartamento ela começa a chorar, sente ódio misturado com tristeza, caminha até o quarto deles, pega uma mala de viagem pequena, abre o guarda roupa e rapidamente retira algumas peças de roupa colocando-as na mala, pega sua bolsa de mão e alguns documentos, volta para a sala enxugando as lágrimas. Ao encontrar Pedro, ela diz firmemente:

— Eu espero que o seu sentimento de culpa exista, e torço pra que ele te destrua.

Raíssa da alguns passos até a entrada do apartamento, pega as chaves de seu carro e sai, sem olhar para trás.

Silêncio.

Estático, olhando para a porta, Pedro começa a tremer, seus olhos começam a lacrimejar, nenhuma lágrima chega a escorrer, ele caminha até a sua mesa de escrever, com a taça de vinho em mãos, ainda tremendo, senta na cadeira, abre o notebook e começa a olhar para a tela, com uma página em branco. Ao lado do seu notebook, o retrato dos dois, ele observa por alguns segundos, toca na beirada superior e bate com força o retrato na mesa, da um longo gole no vinho, suspira… olha para o teclado e começa a digitar:

O dia em que ela foi embora

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