Moderados, uni-vos! Mas onde?!?

Auditório do Brazil Forum 2017 na London School of Economics (LSE). Foto: Juliano Spyer.

O Brazil Forum 2o17 produziu dois milagres. O primeiro foi que um grupo de voluntários, estudantes auto-organizados, desviando fatias generosas do tempo escasso de estudo, realizaram um evento de grande qualidade. Deslocaram e hospedaram dezenas de palestrantes para outro país e, durante as apresentações, se revisaram cumprindo tarefas de organização. Fizeram na raça e isso em si já seria incrível, não fosse o resultado desse esforço: a polarização extrema de opiniões, que hoje é norma nas discussões políticas no Brasil, deu lugar a um ambiente em que pessoas com pontos de vista diferentes conseguiram conversar. Isso foi notado: aqui e aqui.

Dizem que o brasileiro não liga para pontualidade e isso foi verdade também no caso deste Fórum. Mas por uma razão diferente de participantes chegando atrasados ou gastando tempo demais nos coffee-breaks ou nos intervalos para refeição. Durante o evento, esses intervalos foram sendo cancelados ou encurtados pela empolgação de público e palestrantes, que não deixavam que as discussões terminassem no horário.

Falou-se de política, que é o tema mais delicado, mais divisor de opiniões, mas discutiu-se também direitos trabalhistas, questões raciais e de gênero, os custos altos para se investir no Brasil. Em vez de "pensar fora da caixa", os participantes conseguiram pensar fora das certezas. Em vez de abraçar pós-verdades, eles quiseram conhecer as pré-verdades, que são os argumentos e os dados que os convidados trouxeram em suas falas.

Outro detalhe do evento que várias pessoas notaram e comentaram: o interesse dos palestrantes foi além do de dar seus recados. Você olhava ao redor na plateia durante os dois dias e lá estavam eles, presentes, atentos, interessados. Ministro Barroso, Claudia Costin, Juiz Sergio Moro, Deputado Patrus Ananias* foram alguns dos mais assíduos.

Eu estava tão comovido pelo ambiente pacífico e produtivo que fui conversar sobre isso com outras pessoas. Por que precisamos estar fora do Brasil para conversar sobre o Brasil? Um dos organizadores explicou que a dificuldade de se fazer um evento lá é que os locais de encontro já estão demarcados como territórios ocupados.

A tragédia dessa situação é que, ao exigir que o outro necessariamente concorde com certos pontos de vista, estamos perdendo tempo tocando as nossas cornetas. Quem já está convencido, aplaude. Quem discorda, acirra suas convicções. E quem estaria interessado em ouvir e conversar, se afasta e fica quieto para não levar pedrada.

Uma jornalista da BBC Brasil (aqui a cobertura) disse que eles estão buscando uma posição editoral que fuja à polarização e que, por isso, recebem pedradas dos dois. Por causa dessa polarização claustrofóbica, eles fizeram uma matéria com um cientista político da Universidade de Stanford, que diagnosticou que "moderados precisam aprender a defender ideias com paixão de radicais".

O primeiro passo para defender apaixonadamente a moderação talvez seja ter um ponto de encontro, um lugar fora da polarização. Alguém sabe de grupos ou outros espaços online com esse objetivo? Alguma outra ferramenta ou ideia? Moderados do Brasil, uni-vos para combater a polarização, os fundamentaismos, e construir um espaço de diálogo onde as pessoas não se sintam constrangidas a ter dúvidas, a trocar ideias e a pensar.

*O Deputado Patrus é casado com a minha tia.