As maravilhas e descobertas de um lugar reinventado

Por Andressa de Ungaro

A gente passa batido, cabisbaixo e pensativo. Com pressa, sempre. Passo firme, corridinha, mochila batendo nas costas, arruma a alça no ombro; corridinha, acabou o ar, respira fundo, puxa o ar, solta o ar; volta a respirar e mais uma corridinha. Se identificar com essa cena é normal em São Paulo. A cidade corre e corre rápido. As pessoas correm atrás da cidade, por ela e para ela. Todo mundo quer viver São Paulo, e para sentir isso elas reinventam cada espaço que elas passam.

É na rua. No meio do caminho para ir ao trabalho, a barraquinha de café da manhã da Dona Maria está sempre posicionada ali na saída da estação de trem, Hebraica-Rebouças, próxima à entrada do shopping Eldorado. Tem muito movimento ali por causa dos edifícios empresariais, do shopping, do aeroporto e também por causa do ponto de ônibus que se encontra mais à frente. É um lugar bem estratégico porque é onde tem o fluxo de passagem das pessoas, e seja lá para onde quer que elas estejam indo, no meio do caminho vão ser bem recebidas.

Além da barraca dela, tem a panelona de canjica, a barraca do suco de laranja, o cafezinho, os bolos, os pães de queijo em saquinhos e uma fileira cheia de mesas prontas para receber cada um que passa por ali. E não é só nessa estação que se encontram esses cafés da manhã. Seja na zona Sul, zona Norte, Leste ou no Centro, por volta das seis horas da manhã as barraquinhas aparecem e costumam ir embora só lá pelas nove, dez horas da manhã.

O horário mais cheio é o das sete. As barracas ficam lotadas e não tem um que não venda ali. “É para viagem ou vai comer agora?”, pergunta a dona da barraca. Lidar com as pessoas às vezes não é fácil, ainda mais nessa hora da manhã, mas ela está sempre de prontidão junto com sua prima (que também trabalha na barraca) para conversar e alimentar a todos. Com dois pães na chapa, um misto quente saindo e muito bom humor, tem-se um café da manhã de padaria no meio da rua. Mas o preço não é de padaria, não. O preço é da rua. Um pão na chapa dois reais. Simples, gostoso e prático. No corre-corre, praticidade é tudo. E comida pra levar pra viagem também.

Tudo isso acaba se tornando, de alguma forma, parte do estilo de vida de cada um. As pessoas acabam estabelecendo laços umas com as outras e é isso que falta hoje em dia. A descoberta de falar com gente que você nunca viu é uma experiência que o ser humano deveria vivenciar todo dia, para se reconhecer como gente e não focar no próprio umbigo. Por exemplo: o empresário que trabalha em frente a essas barracas eventualmente deve comprar algo por ali, se encontrar com os vendedores e, por ventura, cumprimentá-los. Vira um hábito! Maria é íntima dos seus clientes já no primeiro contato: “Bom dia, meu amor! O que vai querer, hoje?”. Mesmo que você nunca tenha aparecido lá, para ela, é como se já tivesse.

Na praça também. A Praça Oswaldo Cruz, que fica em frente ao Shopping Pátio Paulista, recebe mais ou menos quinze food trucks num pedacinho de 2m². É um novo lugar. Banquinhos com mesas e toldos são separados para os clientes, mas alguns desses banquinhos já são próprios da praça. Reutilizaram aquele espaço de lazer para transformar em uma área alimentícia, ao ar livre. Tem toda a questão de que os food trucks estão na moda, mas também existe uma sensação boa de estar fora de um ambiente fechado e poder degustar os sabores tanto das comidas, como da vista a céu aberto. “Eu gosto de vir aqui, me sinto relaxada. Fora a quantidade de delícias que tem aqui”, conta Mariana Salinas, 20 anos, estudante de psicologia.

O cheiro de comida invadiu o lugar e a variedade de comida é enorme: comida tailandesa, cheia dos temperos; a nordestina, com o clássico baião de dois servido num potinho de isopor; a italiana, com risotos de sabores exóticos e cogumelos (muitos, por sinal); a americana, representada pelos hambúrgueres, pelo forte sabor texano e pelo molho barbecue. Inunda a praça num banho de aromas e de barrigas roncando. Só de passar já dá vontade de comer.

Caio Rosa, publicitário de 24 anos, afirma que frequenta os food trucks por dois motivos: “a variedade de comida e o preço barato, comparado aos restaurantes”. Talvez isso seja também uma estratégia para atrair mais clientes, porque as pessoas poderiam muito bem ir ao Shopping Pátio Paulista, que fica em frente à praça dos food trucks, mas não. Os curiosos de plantão vão querer entender o que acontece naquela praça e, ao descobrir, dificilmente vão voltar de estômago vazio.

Também na Paulista existe um esquema parecido, só que na Praça Alexandre Gusmão. É uma rua próxima à estação Trianon-Masp (outro lugar com muito movimento). Não passa carro, só gente. Mesas, cadeiras e decorações especializadas foram feitas naquele lugar justamente porque as pessoas passaram a frequentá-lo cada vez mais. O espaço é utilizado para descansar no pós-almoço, para comer, para fumar um cigarro, para tomar um sol e para ter um ar livre.

Já foi comprovado através da Escola de Medicina da Exeter University, da Inglaterra, que espaços com árvores e verdes fazem bem à saúde mental das pessoas. Pode ser que as pessoas nem saibam que precisam disso, mas automaticamente o corpo e a mente procuram lugares que os façam sentir bem.

O Memorial da América Latina, por exemplo, já virou centro receptivo das feiras gastronômicas. Vira e mexe tem festival de churros, festival de ceviche, comida mexicana, festival do morango e agora o da batata. É engraçado imaginar como esse espaço era utilizado como forma de museu e exposições de arte, mas que agora mudou porque as pessoas passaram a se alimentar mais dessa forma nesse lugar. E quando eu digo “alimentar”, não é no sentido literal, mas no sentido de que elas passam a criar coisas e viver a partir delas.

Antes, o Memorial estava esquecido. Hoje, em cada final de semana ou em cada mês tem algo que é muito esperado. Isso só acontece por causa do papel e da importância que as pessoas dão a ele. Claro que o Memorial ainda possui exposições de arte e afins, mas ele é conhecido hoje pelos festivais de comida, principalmente.

Outros espaços também foram modificados por causa disso. Seja um fluxo intenso de pessoas, seja uma demanda, seja uma vontade de comer coisas gostosas. Em São Paulo, as coisas surgem por simplesmente nascerem de algum lugar. É uma relação de prazer entre o cidadão e a cidade. Dona Maria, que escolheu trabalhar na rua com sua barraca; as pessoas que preferem comer na praça do que em restaurantes fechados…lugares inesperados se tornam aquilo o que quiser.