A guerra gera ou não crescimento econômico?

Uma análise rápida da economia americana durante seus períodos de conflitos.

É comum ouvir em cursos ou debates relacionados à economia e a sua história que eventos como a guerra estimularam e foram fundamentais para a recuperação de países desenvolvidos, como os EUA pós-crash de 29. Entretanto, este texto tem como objetivo apresentar uma visão de que um cenário mais pacífico, pró-mercado e com investimento público voltado a setores essenciais seria muito mais benéfico a uma economia do que o cenário de guerra.

G1: PIB per capta americano a dólares constantes de 1996. (Em vermelho o período em que os EUA participaram ativamente da Segunda Guerra Mundial, ao lado dos aliados, após o ataque japonês a Pearl Harbor em 1941, até a derrota do Eixo, em 1945). DELONG, J. Bradford, 1997.

É importante ressaltar que sim, a história não mente: Os EUA realmente apresentaram crescimento econômico durante a segunda guerra. Ou seja, o impacto positivo sobre a variação do PIB é de fato verdadeiro, se analisarmos com viés heterodoxo e desconsiderando o aumento da dívida pública e impactos que os gastos militares e perdas de capital humano possam causar a médio e longo-prazo.

O Gráfico 1 informa que o PIB americano era em torno de $20bi em 1941 e $33bi em 1945, um crescimento de 65% em 4 anos.

O quanto se gasta?

G2: Despesas federais americanas em 2015, sob governo Obama. (OMB, National Priorities Project)

O gráfico 2 mostra que o governo Obama gastou, em 2015, 6 vezes mais em gastos militares do que em educação. Vale lembrar que estes são dados do orçamento federal, não contabilizando gastos dos condados e estados.

Ao contrário da educação, que apresenta retorno em capital humano a longo-prazo, a guerra (ou o medo dela) trava recursos que seriam melhores aproveitados em outros setores. É claro que a ausência de exércitos em todo mundo é uma ideia utópica, visto que diversos governos ainda entram em conflito não só entre si como também em guerras civis.

Sendo assim, o gasto militar empenha função estratégica. Segundo o USDOD, atualmente 300 mil militares americanos estão servindo em bases além do território americano, servindo de braço armado para manutenção dos interesses diplomáticos, militares e comerciais em todo mundo.

O preço da guerra.

G3: Financial data 1790–1957: U.S. Census and St. Louis FED; Financial data 1958–2015 Office of Management and Budget

Sempre que ouço a afirmação, de que a guerra faz a economia de um país crescer, eu penso na enorme quantidade de recursos escassos sendo empregados em capital não só improdutivo, como destrutivo. Se analisarmos a indústria bélica isoladamente, com certeza esta apresentará crescimento. Uma tonelada de metal que poderia ser empregada na fabricação de bens de capital, como máquinas, ou até mesmo bens de consumo ,como carros, dão lugar a algumas dezenas de metralhadoras M1919, que não têm muita utilidade além de avançar pelo fronte ocidental rumo a Berlim.

O gráfico 3 revela que durante TODOS os conflitos, houve enorme crescimento da dívida pública, acompanhadas de décadas de amortização das dívidas e orçamentos públicos mais enxutos.

Metralhadoras M1919 em ação por tropas americanas em Aachen, Alemanha, 1945.

Os economistas heterodoxos são favoráveis a medidas de aumento do gasto público para estímulo da economia, ainda que entre eles haja desavenças sobre em que níveis estes gastos públicos devem estar, para que não prejudiquem a economia como um todo.

Conclusão:

Dívida pública americana, 1900–2016.

Se levarmos em consideração tão e somente o aumento do PIB devido ao aumento dos gastos públicos durante períodos de guerra, a resposta é sim, porém é um crescimento que vem acompanhado de crescimento da dívida pública, sendo a variação da segunda maior do que da primeira. Ou seja, a guerra traz mais consequências econômicas negativas do que positivas. Esta análise ainda leva em consideração apenas o impacto econômico, desconsiderando incapacitações e mortes de ex-combatentes dos conflitos e seu impacto social.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.