Sobre comida e coisas da vida 1: 
- Sim, eu entendo o que você diz. Me corta por dentro, mas eu até concordo com muita coisa aí. Contudo me falha a compreensão da importância que isso tudo adquiriu sendo somente palavras. Aqui no mundo real, onde eu tento viver (agora sem remédios), tem muita coisa rolando, saca? Você sai de casa pra trabalhar, bebendo um chá de erva-cidreira, e ouve que você não é um amigo digno. Você deita pra dormir, ainda comendo um bolinho Ana Maria, e a última mensagem que recebe é sobre como seu egoísmo acaba de entrar no Guinness Book como a maior montanha do mundo. Você acorda e passa manteiga num pão com todo o fã-clube do Everest desejando sua morte. Sobre como essas coisas transpassam do mundo das palavras e atingem o real da forma como o fazem, me falha a compreensão. Mas sei que elas o fazem. Em algum momento, como um daqueles rasgos no tecido da realidade que a gente vê em filme ruim, as coisas começam a entrar no seu universo, te empurrando, pisando no seu pé como num ônibus cheio. Eu sei que o que eu falo soa estranho, mas é só como eu sei falar. Queria saber falar em francês, mas acho uma língua com mais de 500 vogais um tanto estranha pra ser verdadeira. E eu continuo fazendo comparações estranhas para o seu mundo e piadas internas que jamais saíram do meu. Mas é que eu sou bizarro assim mesmo. E enquanto ouvia tudo o que você me disse eu pensava mais e mais coisas estranhas. Especialmente quando você me disse que eu jamais serviria para ser um homem de família e um bom pai. Eu anseio muito por isso e você sabe. Mas, ao ouvir estas palavras saindo da sua boca, eu pensava, exatamente, como você pode se ocupar de pensar coisas tão horríveis sobre alguém enquanto, na esquina suja das nossas vidas, a Coca-Cola lança a "Fanta Guaraná". Darling, oh darling... Fanta Guaraná! E se você não está completamente consternada com este embuste, eu sinto muito: meu coração debruça e chora sobre a certeza de que você e eu não seremos jamais um para o outro.