Avaliação XXV

Comecei por uma análise profunda da minha pessoa. Perguntas como: “o que fui?” “o que tenho sido” “o que serei?”, rondavam minha mente.

Até que me peguei tendo inveja da grama do vizinho. E então, passei por categorizar em pastas mentais as pessoas que circulavam em minha vida. Uma dessas pastas intitulei “os refinados”. “Os refinados” eram pessoas que sempre faziam essa análise de si mesmo, que tiravam dias para reflexão, eram os solitários, aqueles que adoravam estar sozinhos e se sentiam muito bem diante da sua própria face, aqueles que sempre faziam essa dissecação pessoal e, diga-se de passagem, muito bem. Eles eram os meus deuses. E eu seguramente os invejava.

Queria ser como eles, me espelhava nessas pessoas e tentava uma investigação profunda de mim mesma com entusiasmo e energia sobre-humanos. Até que todo esse vigor foi se perdendo pois eu não parecia me encaixar em nenhuma dessas pastas. Muito menos na dos refinados. Como então poderia eu classificar os outros? Quando tirei esse olhar de mim comecei a prestar verdadeira atenção nesses sujeitos, me peguei olhando mais de perto cada classe dessas pessoas que eu antes havia hierarquizado.

Para o meu desapontamento (não surpresa mais) todos eram realmente muito parecidos e suas características vagueavam pelas características dos outros. Todos pareciam em algum ponto meio perdidos, desastrados e refinados em outros. Muitas vezes, aqueles que não se preocupavam muito com essas questões existenciais pareceriam muito mais felizes que os que pensavam demais. Às vezes os de pensamento excessivo (os refinados), mantinham uma relação muito boa consigo mesmo, mas péssimas relações interpessoais. As qualidades variavam e nesse ponto não sabia mais qual personagem era a melhor.

Comecei assim a antropomorfizar meus deuses. Como diria Millôr Fernandes “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem.” Diante do meu limitado grupo de conhecidos, menor ainda eram as pessoas que conseguiam fazer fielmente a análise que eu tanto cultuava, na verdade, o número beirava a zero. Ninguém tinha uma vida estruturada. Por que eu deveria ter? O que é uma vida estruturada? Quais são os nossos ideais de sucesso? Estou no caminho certo? Estou buscando o que realmente me deixará feliz? Realizado? Descobri que eram essas as questões que importavam.

Os antigos questionamentos me ajudaram a enxergar que eu mudei, cresci. Que ainda sou rancorosa e vingativa, mas que enxergo isso hoje. Digamos que estou no meio a meio, oscilando entre as pastas, alternando entre o evoluir o e involuir. Esses questionamentos me fizeram perceber o que eu fui, que continuo mudando e o que eu não quero mais ser. Mas isso é diferente de descobrir o que eu quero. A vida se mostrou uma prova de múltipla escolha, notei que o tempo todo estamos descartando possibilidades, opções, alternativas. E que isso é o que tem nos ajudado a evoluir. Esse sequenciamento de dados e contingências que descartamos é o que nos modela. Então, que aprendamos a eleger da melhor forma possível.

Refletir, parar uns dias, se questionar sobre si mesmo é valoroso. Isso faz com que a gente não esqueça quem fomos e que precisamos tentar melhorar a cada versão. Que devemos escolher e descartar com sabedoria. Mas, para minha surpresa foi aqui que descobri qual era a análise que indiscutivelmente deveria fazer: nunca, em hipótese alguma, eu deveria nivelar o meu sucesso pelo sucesso ou expectativas do outro. Pois cada um apura e define a sua evolução.

Cada um marca na prova da vida as questões que mais lhe parecem certas.

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