Gritaram “Sapatão!”

Primeiro a mãe disse:

“Vai usar rosa, é uma princesa, será bem comportada!”

Depois a tia:

“Da mesma idade do filho da vizinha, bora arranjar o casamento! ~risos~ e ensinar a ser prendada!”

O pai, ausente, nunca se pronunciou

A menina cresceu

Passou da puberdade

Diferente da maioria das meninas da sua idade

Se percebeu

A mãe ainda queria mandar na roupa

A tia “e os namoradinhos?”

E o pai, ausente, geralmente calado

Jogava algum trocado

Gritava que fora suado

Para a menina se culpar

“O pai se matando de trabalhar.

E eu dando mais trabalho”

Chega o momento da verdade

A menina reúne a coragem

“Pai, mãe, sou lésbica”

Ele que nunca falou nada agora vociferava

“prefiro uma filha puta a uma filha virada

É melhor morrer, mas dentro da minha casa não

na minha família não tem lugar ‘pra sapatão”

A mãe agora é calada

Não se atreve ir contra

Quer proteger a filha

Mas sabe que não dar conta

Pedradas em casa

Pedradas na rua

Pedrada atrás de pedrada

Não é mais filha

Não é direita

É fetiche

É promíscua

Mas é feia

É menor

É excluída

Tem que amar escondida

Mas só quer chamar atenção

É pecadora

É imoral

“Devia ser queimada viva”

Não matarás!

“Então vamos xingar, apedrejar, marginalizar”

É lady? É bofe?

É ativa? Passiva? Relativa?

“É bonita demais para ser lésbica”

“É feia demais, homem nenhum iria querer mesmo”

“Eu pego as duas em?”

Gritaram “SAPATÃO!”

É pedrada atrás de pedrada

É contradição atrás de contradição

E a menina segue achando que é errada

Até não conseguir enxergar mais nada

Além de humilhação

Depois de tanto apanhar da vida

Encontra mulheres que lhe mostram uma saída

Se enxerga nelas, é amada por elas, restaura seu coração

E então, entende

Que o que a salvou desse mundo foi ser sapatão!