única cor

e todas as faces eram brancas. e todos os médicos eram brancos. eu fui tirada do útero sem saber que não seria a única vez que choraria porque estava sem minha zona de conforto. minha bolha rosa do tamanho de um punho.

e todas as mãos eram brancas. e todas os lábios finos me ensinaram sobre os escravos negros e fortes. sobre os índios que não eram escravos porque eram espertos. eu não sei falar com minha pátria mãe porque não sei qual a minha árvore genealógica, não sei minha raiz.

e todos os pés eram brancos. eu olhava pra baixo com medo de ser notada de qualquer forma que não deveria ser notada. eu olhava pra baixo enquanto as lágrimas escorriam com medo e o cabelo escondia um pouquinho da minha garganta que sempre quis gritar um silêncio que eu não escutava.

e todos os corpos eram brancos. eu preferia quando os contraste com aquelas peles formava uma poesia bonita e não quando eu me odiava por conseguir ler palavras que me diziam você é um fetiche, você é maravilhosa só que não é pra mim, você tem a cor do pecado, você tem lábios só para serem beijados, você deve ser muito boa de cama e é só isso mesmo, você até que é inteligente, você não é suficiente.

e todas as músicas eram brancas. e todas as roupas de paz eram brancas. e todos os colegas de classe eram brancos. e todos os livros eram brancos. e toda a espiritualidade era branca. e todos os anjos eram brancos com suas assas brancas. e todas as pombas eram brancas. e todos os namorados eram brancos. e todas as moças do carnaval eram pretas. e todas as prostitutas eram pretas. e todas as crianças com fome eram pretas. e todas as mães sem saber ler eram pretas também. e todas as dualidades num preto e branco branco branco branco branco.

às vezes eu me sinto cinza.

às vezes eu não queria ser cor nenhuma.

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