o desejo irrefutável

Eu fico extremamente chateada com a preguiça social de atribuir TODO o conflito humano à inveja. Às vezes o santo das pessoas não bate, às vezes uma pessoa não vai com a cara da outra e gostaria que ela desaparecesse, sem razão nenhuma, ué.

Inclusive, eu acho que cêis se enganam muito quanto ao significado de inveja: não é querer o que o amiguinho tem, é se perguntar “por que o amiguinho tem e eu não?”. Com o agravante que desqualifica o ato ou efeito de ter desse mesmo amiguinho.

E, se a gente pensar bem, tem BEM POUCA COISA que o amiguinho tem e a gente não pode ter:

  • grandes fortunas herdadas e/ou adquiridas;
  • o corpo que o amiguinho habita;
  • as relações de parentesco do amiguinho.

Tem mais? Eu só consigo pensar nessas.

Porque inveja é quando você queria especificamente aquele que o amiguinho tem, não alguma coisa igual ou semelhante. Você gostaria que existisse SÓ UM e que fosse SÓ SEU.

Eu tenho inveja de duas coisas, basicamente: cintura fina e quantidade de animais. POR QUE ALGUMAS INFELIZES TÊM CINTURINHA e eu não, se eu sou tão gente boa? (Nem se eu tirasse 8 pares de costela eu teria!) Por que algumas pessoas podem ter 8 cachorros e 4 gatos e eu não, se eu sou tão legal? Fora isso, eu acho que não tem mais nada neste planeta que me cause inveja. Nem entre as coisas que eu jamais poderei ter, como um número par de rins ou o amor de Ioan Gruffudd.

Aí, no caso, é porque eu acredito que a gente pode ter um número bastante grande de coisas, se a gente realmente quiser. Vejem bem (como diria eloquentemente minha professora de álgebra): o nóis coletivo a que eu me refiro é o nóis classe média imaginária, que tem acesso à internet e perde tempo lendo várias bosta no medium. Não tô falando de gente que não sabe como vai alimentar a si próprio ou três crianças hoje na janta não. Que fique claro.

Mas, sei lá, vale à pena urubuzar a viagem do amiguinho pra Cuba se nunca na sua vida você quis pisar em Cuba? Mas em querendo, será se não é o caso de planejar uma viagem pra si mesmo e parar de encher o saco dos outros? “Ainnn, mas eu me mato pra pagar boleto, não sobra cincão no fim do mês”. Então reavalia suas metas, seus sonhos, seus objetivos. Dá pra trabalhar pra encaixar o que cê quer na sua vida? Vai atrás. Não dá? Muda de vontade. O que não dá é pra ficar amargurado com o que o outro tem e você não.

Só que tem aquele pessoal que, sejemo franco, por que não vai capinar um lote? A pessoa não quer, mas também não quer que ninguém tenha. Cê vê: eu não quero crescer, nem multiplicar. N.ã.o.q.u.e.r.o. Não quero filho, não quero marido, não quero nada, quero ficar aqui 120% de boa na minha existência, quanto a essas coisas. Mas o cerumano não consegue aceitar esse tipo de deboísmo. Ninguém consegue guardar a opinião sobre estado civil e reprodução alheios. A pessoa não quer “solidão”, mas também não quer deixar que ninguém tenha. Parece que cê ofende o âmago (ou a mãe) do indivíduo porque cê não quer a mesma coisa que ele. Além de as pessoas perguntarem QUANDO eu vou ter filho, ao ouvirem um gracioso “jamais” como resposta, entram em modo eleitoral gratuito, defendendo suas escolhas de perpetuação da espécie, como se você estivesse realmente interessado. Por que não vão tomar nos próprios cus?

Tem também o bonito caso que eu tô vivendo no momento que é o da instrução.

Primeiramenty, eu queria abrir aqui um parêntese pra perguntar se vocês são assim mesmo ou é só pra irritar que vocês tratam instrução como educação, cultura e inteligência. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, outra coisa é outra coisa e OUTRA COISA É OUTRA COISA.

Instrução é só um checklist de etapas que a pessoa passou na vida, que não quer dizer, absolutamente, que ela seja uma pessoa educada, inteligente ou culta. E, muito menos, que ela seja mais que alguém. Grandes bosta instrução, se você quer saber.

Quando você convive tempo demais com pessoas instruídas, pessoas MUITO instruídas, você é obrigado a aceitar o fato de que isso só quer dizer que a pessoa passou mais tempo numa escola que você. E é só isso mesmo, mais nada. Nunca na história deste país eu soube de alguém que tenha ficado rico porque estudou muito. Eu conheço pessoas realmente inteligentes (além de bem instruídas) que estão aí vivendo sem saber o dia de amanhã, porque — infelizmente — isso não garante nada. Ao mesmo tempo eu conheço gente que não sabe diferenciar pasto de salada e tá viajando pra Europa 4 vezes por ano, se hospedando em hotel de luxo, porque prosperou economicamente de alguma forma.

Aí quando eu tenho que escutar 20 vezes em uma semana que a animosidade da sociedade para comigo advém do fato de que eu estou perdendo minha vida e minha sanidade mental por motivos de instrução, e que isso configura ~inveja~, eu me pergunto quem é que tá mais equivocado nesse rolê.

Eu gostaria apenas de uma explicação mais detalhada do que consiste essa inveja. É das horas não dormidas? Da constante sensação de incapacidade mental? Do sentimento eterno de fracasso? De perder a disposição para socialização? De se distanciar de todo mundo que você conhece? De perder a vontade de viver?

Dá pra ficar mais umas 8 horas fazendo perguntas desse tipo. Inveja do tempo que eu passo arrebentando minha coluna na frente de um computador, de um livro ou de pilhas de caderno, ninguém tem. Inveja da quantidade de comprimidos pra dor de cabeça que eu preciso tomar diariamente, eu acho que também não. Inveja do descontrole emocional quase que diário, em absolutamente qualquer lugar ou situação, eu duvido que alguém sinta.

O título de doutor exige sobreviver a esse mar de desgraça que vem junto com o processo de adquirirlho (um mar bem semelhante ao já vivido pra adquirir o título de mestre, se vocês querem saber). Mas o que ele traz é só mesmo isso: um conjuntinho de letras que pode vir antes do seu nome que, de fato, não significam absolutamente nada fora de um contexto bastante específico.

Então a pergunta que eu vos faço, especialmente àqueles de voz que não poderiam cagar mais pra ostentação dessas três letrinhas: a “inveja” seria exatamente de quê?

E, em sendo inveja (eu te-nho, você não te-em), por que você não vai lá se lascar pra conseguir o seu?

I have a dream e esse sonho é que a humanidade pare de gastar tempo com o que não lhe interessa, pra ver que bonito que é quando sobra um monte de tempo pra gastar com o que realmente gosta.