Vamo falar de coisa horrível:
Vamo falar de SANGUE.

E não é qualquer sangue, é menstruação!

[[[RYZAS NERVOSAS]]]
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Ontem eu estava vendo um vídeo no youtube sobre calcinhas absorventes e o disclaimer era perfeito: este post falará normalmente de sangue e menstruação, caso você tenha algum problema com isso, boa sorte ano que vem na sexta série.
Então vamo.
Há mais ou menos uns dois anos eu ouvi a expressão “sagrado feminino” pela primeira vez na minha vida. Foi também a primeira vez que me dei conta que tem mulheres que se sentem felizes com a própria fisiologia, o que eu achei que era uma unanimidade: impossível. COMO É QUE ALGUÉM PODE SER FELIZ ESVAINDO SANGUE PERIODICAMENTE? Por favor, não venham me dizer como, esta pergunta é retórica.
Eu tinha 12 anos quando menstruei pela primeira vez e foi horrível. Obviamente eu não esperava por esse momento e vivia minha vida com calças de cores variadas por aí. Pro meu azar, estava na escola (I), de calça branca (II), na sétima série (III). Algum menino OFENDIDÍSSIMO apontou para o “problema” que eu estava tendo e quem foi parar na diretoria fui eu. Além de ser obrigada a perder o restante do dia de aula, eu ainda desmaiei algumas vezes com a intensidade da cólica e tive falta registrada na educação física ao longo da semana, por incapacidade física de participar. Mesmo estando presente, sob o sol e desmaiando de dor tipo a telesena, de hora em hora.
DOZE. ANOS.
Uma criança tendo que lidar com uma função básica do corpo que é um grande “se fode aí” da evolução.
Enquanto isso, meninos seguem suas vidas sem alteração nenhuma, sem dor, sem ter que renunciar à piscina nenhum dia do verão, sem se preocupar em correr e estragar a calça (e a vida social), sem nenhum constrangimento físico. É culpa deles? Não. Mas eu odeio homens um tantinho a mais por causa disso sim.
Eu não sei como é feita hoje a introdução da criança aos métodos de contenção de sangue. No meu tempo, ninguém oferecia nada além de um absorvente externo. Considerando a sociedade em que a gente vive, eu duvido BASTANTE que alguém ofereça um absorvente interno de qualquer espécie pra uma menina que ainda nem entendeu direito como é que funcionam todas as partes do seu corpo. E em 1500 as opções eram essas mesmo: modess e OB. Ganhei um pacote de modess. Foi assim que muitas de nós aprenderam a conviver com essa desgraça.
Lá pela 57ª vez que eu fui impedida de ir pra piscina ou pra praia, eu comprei escondida — com moedas que juntei por meses — um pacote de absorvente interno. Meu deus do céu, que tragédia era aquilo? Eu quero evitar detalhes gráficos da sensação de horror que eu senti, mas foi isso. Eu quase vomitei, tamanha aflição e desconforto. Devo ter tentado mais duas ou três vezes durante todo o curso da minha vida e foi sempre igual. Pra escrever isso agora, eu sinto de novo a sensação de que a qualquer momento terei que correr pro banheiro mais próximo, deixar o que sobrou do meu almoço voltar por onde veio.
— ain, mas é nojo?
Não, é aflição do ato ou efeito de introduzir um algodão seco numa mucosa do meu corpo. Caso você nunca tenha tentado (ou seja homem & chegado até aqui por alguma razão), cata aí um chumaço de algodão e entrocha na boca de uma vez. Aí expande a sensação agradável pra uma área muito mais sensível da sua anatomia e fica a analogia pra você pensar.
Meu sonho era que tivesse dado certo, porque só quem passa dias convivendo com um TOLETE entre seu corpo e o universo, privada de várias atividades simples, sabe a necessidade de encontrar uma solução pra isso.
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Ouvi falar de coletor menstrual pela primeira vez na vida mais de 10 anos atrás. Minha reação, como a de MUITAS mulheres (homens ninguém perguntou), foi de nojo. A diferença é que o que me enoja não é a mesma coisa que enoja minhas coleguinhas. Enquanto todo mundo diz “ui, sangue! você vai carregar um copinho cheio de sangueeeee????”, eu penso “mas comé que cê vai enfiar um troço que não foi esterilizado no seu eu interior?!”.
Pra quem grita “ui, sangue, que nojo”, eu tenho várias perguntas: cêis fazem o quê? Tacam uma rolha? Porque o sangue tá lá no absorvente interno, externo, no tecido, ou no que quer que seja que você use. Tá transformado em gelatina, seco, coagulado, mas TÁ LÁ. E quando você toma banho? Ignora a região? Seu banheiro não fica parecendo a icônica cena de Psicose? Com o sangue a gente tem que lidar de qualquer jeito, minha filha, então que diferença faz? Mas a minha pergunta era — e continua sendo — como é que faz quando você tem que esvaziar e recolocar no banheiro do trabalho? Do shopping? Da casa da amiga? Do show? Químico? Do centro da cidade?
— ain, carrega uma garrafinha de água e lava dentro do ~reservado~ mesmo.
Sim, até aí eu entendi. Mas cê quer me convencer que o negócio (o coletor, no caso) entrou em contato com o ar desses ambientes, com uma aguinha filtrada em uma garrafa reaproveitada e com a minha mão que — COM SORTE! — foi lavada com água e sabão antes de todo o procedimento de usar o banheiro, vai estar em condição de voltar pra dentro do meu corpo por mais 8 a 12 horas? CREIO QUE NÃO.
Aí depois a pessoa compra 8 gino-canesten num ano e não sabe como é que tem tanta candidíase. Deus me dibre.
Mas aí corta pra 2018 e devotas do coletor menstrual saem de bueiros pra cagar regra pra vida alheia. TIRE UM MINUTINHO DA SUA VIDA PRA TESTAR O COLETOR!!11 Então vamo tentar no conforto do lar, né? Se eu ficar menstruada num domingo eu vejo aí qual é a possibilidade de conviver com esse troço que aparentemente só posso ferver no primeiro dia que for usar. Começa aí o inconveniente: infelizmente, não somos relógios. Aqui pra mim tudo costuma ser muito bem reguladinho e, mesmo assim, tem dias que vem aquela gostosa surpresinha dois dias antes do que deveria, dois dias depois. Agora pensa você lá vivendo tranquilamente, quando se depara com a necessidade de usar o troço enquanto anda pelo corredor do supermercado enquanto estava escolhendo marca de maionese, dois dias antes do planejado, e não tá com o negócio na bolsa, muito menos esterilizado. Larga tudo e corre pra casa? E se tá longe? E se precisar sentar no ônibus? Ou passa 5 dias fervendo o bendito e carregando na bolsa, só pra ter que correr pro banheiro do carrefour, onde não tem sabão pra lavar a mão e nem garantia de sair imune dali, fazer uma pequena prece e introduzir seu copinho corpo adentro? Olha, mas nem pensar.
E aí, você tem que ferver de novo quando tudo terminar. Tranquilíssimo, cê avalia a situação, pensa “hum, acho que agora acabou mesmo aqui”, ferve o coletor, guarda. Pra seis horas depois seu útero falar “ACHOU QUE TAVA LIVRE ATÉ MÊS QUE VEM? ACHOU ERRADO, OTÁRIA!”, e você ferver esse troço pra guardar mais 4 vezes ainda, porque isso vai acontecer de novo. E de novo.
MAS BELEZA, você aceitou que mulher tem mais é que se lascar mesmo, vamo colocar esse negócio pra dentro. Só pra descobrir que é tão horrível quanto o chumaço de algodão. É uma borracha seca que NÃO VAI ENTRAR. Você pode se arrebentar inteira, mas não vai entrar. Você pode ter 3 mãos e NÃO VAI ENTRAR. Você pode fazer um grand plié de cabeça pra baixo e NÃO.VAI.ENTRAR. É igual uma criança de 3 anos que não quer comer o brócolis, ela trava ali a boca e não tem colher que entre, nem se você quebrar os 20 dentes que ela tem. A diferença é que não tem negociação razoável com a outra ponta da sua anatomia. TRANCOU, TÁ TRANCADO. Não tem aríete que abra.
Aí alguns de vocês já estão gritando igual minha tia “AHHHHHHH, MAS UM PINTÃO ENTRA!”.
Caso seja esse seu poder de argumentação, eu não sei se fico mais preocupada com sua vida sexual ou com seu relacionamento com objetos introduzidos em buracos anatômicos. NÃO É A MESMA COISA. Não é nem remotamente parecido! Pelo seu fiofó passam cocôs de diversos calibres, mas isso não quer dizer que cê vai espontaneamente enfiar um pepino ali SÓ PORQUE É POSSÍVEL! (Se enfiar, problema seu, mas a ideia é essa.)
Agora você imagine a frustração de uma mulher adulta ao perceber que a única saída pra sua vida é a menopausa, porque enquanto ela não chegar, não existe forma natural de evitar o sangramento periódico. Lembrando sempre que não estou perguntando sobre sua experiência com anticoncepcionais ininterruptos ou hormônios de qualquer espécie, bem como tratamentos médicos para suspensão de menstruação. Imagine a frustração da mulher que não se sente sagrada merda nenhuma, que se sente condenada a passar uma semana inteira de cada mês lidando com uma pequena cena de crime a cada vez que vai ao banheiro, toma banho, se movimenta, respira mais fundo. A frustração da mulher que não pode dormir em paz por vários dias, porque cobertor, lençol e pijama a gente lava, mas o colchão é um pouquinho mais complicado. Aí pensa na mulher que ouve a solução mágica — dá pra dormir até pelada e plantando bananeira! — , tenta essa solução e pra ela não funciona.
— mas você insistiu?
— tentou ficar agachada?
— passou óleo de coco?
— dobrou tal qual um origami e esperou abrir violentamente dentro do canal vaginal?
MANO DO CÉU, deixa a mulher que falou “tentei e não deu” em paz, não é possível esse CSI: menstruação. A gente já tá se sentindo indigna da salvação e de participação do delírio coletivo, não vem piorar a situação.
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Agora surgiu essa nova palavra da fé, a calcinha absorvente. Como qualquer membro do proletariado, economizei por meses pra comprar duas, já que cada uma custa meio salário mínimo. Comprei a nacionalzona mesmo, que eu não tenho dinheiro pra mandar vir a original de fora do brasil. No dia em que elas chegaram, eu peguei na mão e fiz uma prece pra nossa senhora do útero destampado pra que elas funcionassem, porque eu PRECISO. DORMIR. em paz. Não tô nem cogitando usar sozinha, como prometem. Tô pensando em usar com 8 absorventes colados pelo interior dela. E a única coisa que eu espero é não ter que explicar nunca mais pra ninguém porque é que parece que eu tomei um tiro nas costas, dentro do meu quarto, numa manhã qualquer de quarta-feira.
(In)felizmente, ainda não tive oportunidade de usar as calçolas, mas a internet é esse lugar incrível com o olho que tudo vê, de modos que agora, aonde quer que eu vá, tem uma resenha das benditas. Assim como o vídeo do youtube que eu colei lá em cima. A parte boa é que aparentemente elas não funcionam. É uma tristeza pensar na quantidade de dinheiro e esperança depositados num pedaço de pano supostamente tecnológico, só pra descobrir que provavelmente vou me decepcionar. Mas essa é a parte BOA?, você me pergunta. E eu te digo que sim. A parte ruim é conversar com as pessoas a respeito do assunto ou apenas ler os comentários por aí, pra ter que escutar — antes de terminar a primeira frase — “MAS, MANA, POR QUE VOCÊ NÃO USA COLETOR??????? COLETOR É VIDA!!!!!!!!!”

Primeiramente que mana teu cu.
Segundamente que eu só queria saber quanto é que vocês tão recebendo de publicidade, porque por mais que eu saiba que vinagre com bicarbonato é o melhor produto de limpeza que existe, eu não saio gritando de dentro do banheiro de ninguém que tá comprando x-14, veja e pinho sol que, por uma fração ínfima do preço, tem um negocinho muito melhor pra desencardir suas instalações. Espero apenas a mesma cortesia em retribuição.
(Esperando a primeira desavisada que vai chegar aqui PRONTA pra espalhar a palavra. Xiva me dê paciência, porque se der força eu vou ter que comprar um computador novo.)
