O problema do “seja homem”

Masculinidade, violência e a Polícia do Paraná

Divulgação/PM Paraná

Checando as notícias na manhã de domingo, me deparei com uma matéria da Revista Fórum sobre um edital da Polícia Militar do Paraná que, entre outras coisas, tinha a masculinidade como pré-requisito para o processo seletivo. E não é qualquer masculinidade: o edital nº 01-Cadete-PMPR-2019 divulgado no site do Núcleo de Concursos da Universidade Federal do Paraná define em seu Anexo II o pré-requisito como “capacidade de o indivíduo em não se impressionar com cenas violentas, suportar vulgaridades, não emocionar-se facilmente, tampouco demonstrar interesse em histórias românticas e de amor”.

A exigência dessa masculinidade descrita em um concurso público aberto para todos os gêneros, além de ser absurdamente excludente, traz à tona um problema que é a causa de muitas dessas situações de sexismo e violência de gênero que vemos por aí: a construção de uma masculinidade atrelada à insensibilidade e à violência, e isso está diretamente relacionado com a escolha da cor da roupa ou do quarto da criança enquanto ela ainda nem nasceu.

“Ai, mas que exagero, não dá pra generalizar”. Será?

Não é por acaso que uma das instituições mais violentas do Estado como a Polícia Militar exige “masculinidade” como pré-requisito. Ao exigir, dentro dessa masculinidade, a insensibilidade, voltamos à infância de muitos meninos que são ensinados a “agir feito homem”. Mas, o que é agir feito homem?

O documentário “The Mask You Live In”, um dos conteúdos que na minha opinião melhor explora essa relação entre masculinidade e violência, inicia com o relato de Joe Ehrmann, treinador de futebol americano:

“A minha memória mais antiga é a do meu pai me levando ao porão da minha mãe, levantando os braços e me ensinando a dar golpes e socos. Foi lá que ele me disse: “Seja homem. Pare de chorar, não se emocione. Se vai ser um homem no mundo, controle as pessoas e as situações”. Isso me deu uma vergonha tremenda. Saí de lá com lágrimas nos olhos, achando que eu não era homem o bastante”.

O filme de 2015, dirigido pela americana Jennifer Siebel Newsom traz, além de relatos como este, entrevistas com especialistas sobre a relação entre o “be a man” na infância e os altos índices de violência e do consumo de drogas entre os homens de todas as idades nos EUA, com um recorte aprofundado para a situação dos adolescentes.

No Brasil, temos o documentário “Precisamos falar com os Homens?” que faz o mesmo serviço. A iniciativa da Onu Mulheres e do Papo de Homem apresenta a construção da masculinidade trazendo dados nacionais e focando em como esse conceito afeta as relações entre homens e mulheres.

Ruim para os homens, pior para as mulheres

Se existe essa definição do que é ser homem, há na contramão o estereótipo de o que é ser mulher. Enquanto na masculinidade temos a força, no feminino temos a fraqueza; se o homem é insensível, a mulher é a que chora; se temos no homem o controle, culturalmente temos na mulher a submissão. E é aí que a coisa fica bem grave.

Nesse contexto, todas as características tidas como femininas são negadas pelos homens, porque ser mulher é algo inferior, logo, ter características que os aproximem do feminino os faz inferiores também. E assim se perpetua um discurso de dominação e violência entre os homens e, principalmente, para com as mulheres.

Um estudo do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo publicado na Revista Brasileira de Etimologia em 2002 fez um comparativo entre as violências sofridas pelos homens e as perpetradas contra suas parceiras íntimas. Do grupo, 89% já havia sofrido, ao longo da sua vida, algum tipo de violência, principalmente psicológica, praticadas por conhecidos, familiares ou parceiras íntimas. Ao comparar as violências praticadas por esses homens contra suas parceiras contra as agressões sofridas desses homens no qual a agressora é a parceira, os dados mostram uma diferença significativa: “Na relação entre sofrer por suas parceiras e perpetrar, 14,2% dos casos são sobrepostos e 81,2% somente perpetraram”.

Será isso somente uma coincidência?

E os danos desse conceito de masculinidade vão além….

Além dos dados alarmantes de violência contra a mulher que vemos diariamente — 12 mulheres são assassinadas por DIA e mais de 500 mulheres são vítimas de violência POR HORA no Brasil — , nos deparamos com situações na vida dos homens que nos fazem questionar esse conceito de o que é ser homem.

No ano passado, uma história minimamente bizarra tomou as redes depois que Buzzfeed divulgou que muitos homens não estavam limpando a bunda porque “quem limpa o salão espera visita”. Esse medo de colocar a masculinidade em cheque também aparece nos números de homens que deixam de fazer exames preventivos, como para diagnóstico de câncer de próstata. Em 2016, foram diagnosticados mais de 61 mil novos casos da doença e, ainda hoje, um terço da população masculina do país se recusa a fazer o exame de toque.

Tá, mas e o que isso tem a ver com o concurso?

Tudo. E mais um pouco. E se com tudo isso você não consegue ver problema nesse conceito de masculinidade e toda a sua construção, amigo, você precisa rever os seus conceitos com urgência.