Crônica Materna — Poção Mágica
Dia desses, tinha uma pessoa na minha casa nos visitando. No seu primeiro “Bom dia” já percebi uma voz fanha e um nariz entupido. Após o bom dia fanhoso veio a frase que mais temia: Posso pegar sua bebê?… Na hora a espinha gelou mas lembrei dos “conselhos” que recebi da família e companhia limitada…” precisa criar anticorpos”, “não vai criar essa menina numa bolha”, “deixa as pessoas pegarem se não sera mimada”,”tem que criar resistência”. Respirei, sorri e liberei. Elas brincaram por alguns minutos. Pronto, ela já tem cinco meses, vamos ser menos!
Passado algum tempo (não mensurei ao certo), fui dar banho na bebê e senti seu nariz entupido, escorrendo e ela estava irritada. Não conseguia mamar. Na hora me veio a cabeça a cena da visita chupando seu nariz congestionado e dos “conselhos” que havia recebido ao longo dos cinco meses toda vez que alguém inconveniente me via com a bebê e agindo com cautela (álcool nas mãos, banho, higiene, cuidados)…. imediatamente me subiu a cabeça um sangue materno, um vulcão… pronto, bebê adoeceu. A vontade foi ligar para a visita e para os “conselheiros” e dizer… Pode vir aqui em casa passar a noite em claro cuidando de bebê doente por favor! Mas não, a doente provavelmente iria dormir a noite inteira com efeito de descongestionante e anti-histamínico e os conselheiros também dormiriam 8 horas seguidas nesse friozinho, já eu… seguiria madrugada friorenta a fora cuidando do pacotinho sem culpa da negligência e excesso de palpites….
Mas o fato importante disso tudo não é o relato acima. O que quero contar é mais bonito. Depois que percebi que a bebê estava adoecendo… dei o banho. Ao sair do banho, senti meu corpo esquentar. Senti uma dor estranha, parecia que meu corpo estava em movimento…. minhas células todas tinham começado a dançar. Meu rosto ficou vermelho, esquentei bem… parecia febre, estado febril… algo acontecia…
Quando fui amamentar, meus peitos encheram de uma tal maneira, um leite grosso, branco, quase amarelado… coisa linda de se ver. Um leite forte… um leite cheio de anticorpos e o que a bebê precisava no momento. Estava tão grosso e forte que até “doeu” para sair. E ela mamou. Mamou com aquele nariz entupido mas conseguiu. Ficou bebada, embriagada de remédio materno e de amor… e dormiu.
Horas depois, os sintomas foram passando. Dia depois, esta bebê estava de novo bem, sem sinais de doenças e sem resquício da invasão insana de uma pessoa doente na minha casa.
Entendi então o que foi aquele mal estar no banheiro, aquela sensação de gripe. Era o meu corpo entendendo o que se passava e preparando uma poção mágica para cuidar dela. Era o meu corpo preparando o leite materno que ela precisava naquele momento, com os compostos que ela precisava. Era amor misturado com alimento. Que engraçado.
Me senti a mulher maravilha. Não, não aquela da ficção. Mulher maravilha de verdade. Na verdade, todas as mães merecem este título, de mulher maravilha.
A ironia é que quando eu era criança, sempre quis ter poderes mágicos… parecia tão irreal. Neste dia percebi o quão poderosa eu sou e quão poderosa é uma mãe e seu leite materno.
Taí, um sonho de infância realizado. Eu fabrico poção mágica, poção mágica que cura e salva vida…. leite materno!