Observatório real

Em meio às transformações sociais, digitais e de relações interpessoais, somos condicionados ao novo e diretamente as novas mudanças. Eu como negro, estudante de uma universidade privada e profissional de agência de publicidade já me deparei por muitas vezes em situações que precisei ter jogo de cintura e estar atento as novas regras sociais para me adaptar e me manter dentro dos padrões sociais.
Os relatos abaixo são um observatório pessoal real que vivo constantemente e luto diariamente para que novas mudanças aconteçam.
- Ser negro em uma universidade privada: eu nunca achei que isso seria algo real, tirando o fato de no Ensino Médio eu conviver com uma média de 40% dos meus colegas de classe negros, na universidade achei que isso seria igual ou superior, mas infelizmente essa não é a realidade. Quando estudei em uma instituição cuja mensalidade girava em torno de 3k e não oferecia nenhum programa de bolsas para alunos de baixa renda me deparei numa sala de aula com 20 alunos, o turno do matutino e sua grande maioria de alunos dos outros períodos brancos de classe A e B, sim eu era o único negro do meu período naquela instituição.
- Agência de publicidade: revisando minhas antigas experiências adquiridas e todo o meu histórico profissional somente uma vez eu tive um chefe negro nesses meus 5 anos de estrada na área de publicidade e marketing. Já fui tirado de projetos para clientes onde por conta da minha cor eu não poderia dar a minha "opinião", mesmo sabendo que eu utilizava o produto que estava em pauta no momento, eu não era uma pessoa adequada segundo minha chefe para participar de tal discussão.
- Relacionamento afetivo: sim, negro também sofre na hora de se relacionar, isso quando as pessoas não nos veem apenas como meros objetos sexuais. Quantas vezes utilizando aplicativos ou estando em baladas e festas e caras (sempre brancos) já estão com a mera e cansativa pergunta na ponta da língua -É dotado? Quantos cm?. Até os meus 19 anos eu não via problema naquele tipo de pergunta até o momento que eu realmente comecei a me questionar por qual motivo sempre são os mesmos padrões que me perguntavam tal coisa e sempre nos mesmos meios. Para concluir esse tópico, mas pauta para um outro texto, eu já fui vitima de objetificação por um cara que eu gostava e foi bem frustrante e desmotivador ouvir da própria boca dele -Olha esse contraste, eu amo caras negros como você, fica uma diferenciação linda. Ps. alguns podem achar que isso é extremamente normal, mas não é e falarei sobre isso em breve.
- Padrão de vida: eu agradeço todos os dias por ter condições de poder ir a uma loja quando eu quiser e comprar algo que eu sinto vontade, mas mesmo possuindo poder aquisitivo para usufruir de tais consumos próprios eu sofro com a rejeição. Chega a ser triste eu frequentar um restaurante caro onde eu olho para os lados e os únicos negros no ambiente ser eu e os seguranças. Chega a ser frustrante você chegar numa loja para comprar peças de roupas e enquanto aguarda na fila para pagar os vendedores (todos brancos) te ignorar e ainda fingir que você não está ali segurando peças da loja nas mãos e passar pessoas na sua frente. Chega a ser estranho você andar num ambiente ou grupo de amigos e todos serem brancos e somente você o negro.
Nesses tópicos eu apenas quis contar um pouco como é o fato de ser negro, gay e de família pobre, mas que com os meus esforços pessoais, ajuda da minha mãe e de pessoas que me amam eu conquistar aos poucos o meu espaço e local de fala. Não estou aqui para me vitimizar, querer ibope ou qualquer coisa do tipo, só quero mostrar para as pessoas o quanto pequenas ações e atitudes podem refletir na forma como uma pessoa se comporta, reage aos condicionamentos sociais e psicológicos.
