Massa ao molho vermelho, linguiça caipira e uma carta de amor

Por: Andresa de Carvalho


Deixei uma mensagem preocupada. Acreditei que estava na casa dos seus pais, descansando. Aliás, foi exatamente isso que escrevi: “imagino que esteja na casa dos seus pais, tirando uma soneca…”.

Estreei a cafeteira. Ouvi aquela música que me lembra a viagem com as meninas. Demorei, mas voltei a Nova York. Demorei ainda mais pra voltar pra Terra quando alguém passou por mim deixando o perfume que todas usávamos em 1995 e morri de vontade de saber se você também usava. É difícil acreditar que não nos conhecíamos em 1995. Ouvi Tira ao Álvaro, a caminho do trabalho, e me lembrei que o seu celular já teve esse toque. E ri. E chorei. Respondi ao e-mail do meu professor, com as suas palavras, do jeitinho que me aconselhou. Ele nunca respondeu e, embora tenha sido um tanto frustrante, eu não consigo não achar graça quando me lembro. Rir, certamente, é o que faríamos.

Perdi minha mala e tô com preguiça de me mexer. Sim, fiquei com a roupa do corpo! Engordei e, agora, emagreci. É que você não sabe, mas depois que fiquei triste como nunca, voltei a ficar feliz. E sei que você vai adorar saber disso.

Devorei o artigo da Chimamanda, uma escritora nigeriana que descobri depois que você foi embora. Ela sabe — como a gente sempre soube — que seria muito bom se mais mulheres sentissem que não têm de se adequar a todas as expectativas culturais.

Conheci o Bernardo. E me derreti por ele. Desejei que o tempo voltasse e isso ainda acontece muito, mas, agora, desejo que tempo pare um pouco, às vezes… Acho que é pelo que te contei lá em cima, sobre estar feliz.

Vi a Elisa apenas duas vezes, mas nos falamos mais. Fiz uma tatuagem. A Hellinha também. E a dela é tão você… Vi o Matheus uma vez só, feliz toda vida, andando de bicicleta. Ele continua a sua cara. Mudei de trabalho e é tão pertinho de onde você trabalhava antes de se mudar pro Rio. Sim, ano generoso! Tetê teve outro neném e nosso amigo oculto não aconteceu. Você me deixou a Fernanda e, ainda que eu viva mil anos, não terei tempo suficiente pra te dizer obrigada.

As crianças estão lindas e não é corujice de tia, você sabe. O Galo ganhou a libertadores e eu sinceramente acho que você deu uma forcinha. Fui ao show do Paul. Ah, você teria amado… Não, não voltei pra academia, mas juro que a promessa continua comigo. Apertei o Sundown na prateleira da farmácia pra lembrar aquele verão de 1987 outras cerca de vinte vezes e, agora, a lembrança vem junto com o seu riso incrédulo. A Cassi continua linda e rara. Você não vai acreditar, mas comemorei meu aniversário! Até a Raquel, mais rara que a Cassi, apareceu.

Sinto o cheiro da minha mãe quando tiro o bolo do forno. Não levanto os olhos daquela foto de quando estávamos todas reunidas. Cubro meus biscoitos de queijo, quentinhos, com a sombrinha de crochê feita pela minha avó e invariavelmente me lembro que quero ser como vocês, mulheres da minha vida que já não estão mais aqui. Preciso fazer alguma coisa pra ficar, quando eu também partir.

Não, claro que eu não quero partir. Continuo achando a vida linda, ainda que hoje faça um ano que você está longe. Você não está no Rio, na Domínio, passando uns dias Montevidéu ou tirando uma soneca na casa dos seus pais e, embora eu tenha te escrito pra contar algumas das coisas que quis tanto dividir com você no último ano, por mais estranho que pareça, desde que se foi, sei que está aqui comigo. O tempo todo.


Para dar um quente no coração, massa de molho vermelho e linguiça caipira




Ingredientes

  • 500 gramas de talharim cozido;
  • Azeite de oliva;
  • 6 tomates bem maduros;
  • 1 cebola grande;
  • 1/2 copo de água;
  • Salsinha a gosto;
  • Cebolinha a gosto;
  • 1 quilo de linguiça caipira;
  • 200 gramas de azeitonas pretas;
  • Sal a gosto;
  • Pimenta calabresa desidratada a gosto.

Modo de preparo

Corte os tomates em cubos, com as semente. Pique a cebola, a salsinha e a cebolinha. Em uma panela, em fogo baixo, coloque o azeite e a cebola picada e deixe dourar um pouquinho. Coloque os tomates cortados em cubos e mexa bem. Adicione a água e continue mexendo para que incorporem. Depois é só deixar cozinhar até que o molho esteja encorpado. Neste ponto, acrescente a linguiça que pode ser cortada à faca ou grosseiramente. Por fim, acrescente as azeitonas e o tempero verde. Acerte o sal e coloque a pimenta a gosto. Regue a massa e sirva em seguida.


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Sobre mim

Jornalista, fiz carreira no mundo digital gerenciando projetos e escrevendo para grandes marcas. Hoje, divido meu tempo entre a Casa dos Textos, meus sobrinhos e meus bolos. :)

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