Nhoque doce e as descobertas da ausência

Por: Andresa de Carvalho


No início de março daquele ano as descobertas da ausência causadas por uma morte repentina não eram econômicas. Os planos dos ventos eram muito diferentes dos meus e sem tempo para organizar o caos mental que se instalou aqui, abri o guarda-roupas para esvaziá-lo lentamente, desdobrando, cheirando e chorando cada lembrança.

Abracei a agenda telefônica ao me deparar com a caligrafia, passei os dedos trêmulos pelo travesseiro ainda carregado pelo cheiro dos cabelos loiros e fugi do frasco de perfume como se ele trouxesse um punhal afiado junto com as notas de Flor de Azahar que por tanto tempo foram personificadas por alguém tão meu.

Na semana que se seguiu ao velório da minha mãe eu dormi com o meu pai e o primeiro que acordava iniciava o choro matinal que embalava nossas manhãs até que as burocracias da vida nos exigiam dar um nó na dor e prendê-lo na garganta até a hora de voltar para a cama.

Cada móvel, livro, colcha ou canto da casa era carregado dela e a cozinha, por todas as casas pelas quais passamos, sempre representou, sob seu domínio, o nosso ponto de encontro. Num desses primeiros dias de luto, papai e eu, simultânea, descontrolada e surpreendentemente choramos nos entreolhando quando ele, pela primeira vez, amassou alho no pilão de ferro fundido que não nos poupou do mais profundo vazio ao ressoar um som, até aquela altura, produzido apenas por ela.

As descobertas da ausência são tão dolorosas quanto lindas e podem estar travestidas de sachê de lavanda ao abrir da gaveta ou de aroma de fubá quente da fornada de broas que reativam suas memórias-base sem aviso prévio.

Fazia vinte dias que havíamos perdido mamãe quando alcancei seus cadernos de receita. Folheei uma por uma as centenas de anotações detalhadinhas, além de recortes de embalagens de Caldo Knorr, Leite Moça e Sococo com sugestões que lhe pareceram promissoras, colecionadas ao longo de tantos anos de forno e fogão.

Ali, alisando as páginas dos mais festejados e tradicionais pratos assinados por ela e esperados pela família a cada aniversário ou feriado, de bate pronto, tive vontade de fazê-los todos. Uma forma de perpetuar os sabores de sua cozinha, de mantê-la viva nos famosos bolos de fubá, castanha do Pará ou coco gelado, no lendário molho branco, na farofa de biscoito, no nhoque doce, no creme de abacaxi, na rosquinha de nata polvilhada com açúcar cristal e canela, na massa de pizza — que ela sempre fez quadrada “porque a pizza da Laura é diferente de todas as outras”.

Acontece, porém, que era cedo demais. Aqui, na minha casa, só não se come na infelicidade e ainda estávamos mergulhados na dor. O melhor foi guardar tudo de volta, caderno por caderno, recorte por recorte, e esperar o sangue estancar e dar vez à cicatriz que certamente nos deixaria fortalecidos, ainda que marcados.

Passaram-se respeitáveis meses até que a vontade de comer e cozinhar me reabastecesse de esperança e o primeiro prato depois da tristeza representasse, como de costume, a redenção de quem se recusa a afundar.

Para perpetuar minhas receitas preferidas e celebrar os nossos tantos renascimentos em uma mesma vida, criei o Starter, um projeto que tem como objetivo ser a extensão do melhor das cozinhas, de onde saem receitas gostosas e histórias reconfortantes.


Para começar, o nhoque doce da mamãe ❤

Ingredientes do nhoque

  • 4 xícaras de chá de farinha de trigo;
  • 1 xícara de chá de açúcar;
  • 1/2 xícara de chá de leite;
  • 1 colheres de fermento em pó;
  • 2 colheres generosas de manteiga;
  • 3 ovos;
  • 5 colheres de queijo meia cura ralado;
  • Coco ralado e açúcar para polvilhar.

Modo de preparo do biscoito

Em um recipiente peneire a farinha de trigo, o açúcar e o fermento. Adicione os demais ingredientes e sove bem até que fique uma massa lisa e homogênea.

Em uma bancada enfarinhada, enrole no formato de um rolinho comprido e corte como os tradicionais nhoques de batata. Acondicione-os em uma forma untada e polvilhada.

Ingredientes da calda

  • 1 xícara de chá de açúcar;
  • 2 xícaras de chá de água.

Modo de preparo da calda

Coloque o açúcar e a água para ferverem e espere até engrossar um pouquinho — cerca de 20 minutos. Banhe os biscoitos na calda de açúcar por dois minutos e, em seguida, passe-os sobre uma mistura de coco ralado e açúcar cristal.

Atenção: guarde-os em uma vasilha com tampa para que fiquem macios.

*A receita original, copiada em 30 de outubro de 1983, não leva manteiga, mas ganhou duas colheres — acrescidas com outra caneta, tempos depois — para que os biscoitos ficassem ainda mais macios.

Vocês sabiam que Santo Agostinho foi professor de retórica, em Roma, lá pelo ano de 400? E, segundo São Jerônimo, seu contemporâneo, Agostinho restabeleceu a antiga fé. Dom da palavra! ❤

17/02/2013, e-mail da Luana Simonini: (...) Mando essa mensagem de 
Santo Agostinho, ela diz tudo que quero dizer e espero, de coração, que ela traga um milímetro de conforto em sua alma (...).
A morte não é nada.  Eu somente passei  para o outro lado do Caminho.
Eu sou eu, vocês são vocês. O que eu era para vocês,  eu continuarei sendo.
Me deem o nome  que vocês sempre me deram,  falem comigo  como vocês sempre fizeram.
Vocês continuam vivendo  no mundo das criaturas,  eu estou vivendo  no mundo do Criador.
Não utilizem um tom solene  ou triste, continuem a rir  daquilo que nos fazia rir juntos.  Rezem, sorriam, pensem em mim. Rezem por mim.
Que meu nome seja pronunciado como sempre foi,  sem ênfase de nenhum tipo. Sem nenhum traço de sombra ou tristeza.
A vida significa tudo  o que ela sempre significou,  o fio não foi cortado.  Porque eu estaria fora  de seus pensamentos, agora que estou apenas fora  de suas vistas?
Eu não estou longe,  apenas estou  do outro lado do Caminho...
Você que aí ficou, siga em frente, a vida continua, linda e bela como sempre foi.

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Sobre mim

Jornalista, fiz carreira no mundo digital gerenciando projetos e escrevendo para grandes marcas. Hoje, divido meu tempo entre a Casa dos Textos, meus sobrinhos e meus bolos. :)

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