Vale da Eletrônica no Sul de Minas abre espaço para as startups

Estima-se que 50 estão operando na região

24/02/2017 — Diário do Comércio (para assinantes)

Original em http://www.diariodocomercio.com.br/noticia.php?tit=vale_da_eletronica_no_sul_de_minas_abre_espaco_para_as_startups&id=178903

Não é novidade que o município de Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas Gerais, respira tecnologia e inovação. O local é conhecido como Vale da Eletrônica desde a década de 80, sendo o segmento uma das principais fontes de renda da região. Mas, nos últimos anos, um movimento diferenciado vem chamando a atenção na cidade: o surgimento de um número expressivo de startups, que se juntam às indústrias já existentes no local e trazem novos ares para o cenário de inovação do município. A partir dessa sinergia, Santa Rita do Sapucaí vem se destacando não só como um polo tecnológico, mas um hub de interação entre indústria e startups.

O presidente do Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Vale da Eletrônica (Sindivel), Roberto de Souza Pinto, afirma que a sinergia é algo natural entre indústrias e startups na cidade, tendo em vista que a origem da maior parte das empresas já consolidadas no Vale é a universidade. “A maior parte das indústrias que existem na cidade hoje começou como startups também, pois quando surgiram propunham coisas inovadoras. Além disso, muitas foram fundadas por ex-alunos empreendedores, então eles são muito abertos aos jovens das startups, que muitas vezes também vêm desse ambiente de academia”, afirma.

Para o presidente, a presença das startups no Vale da Eletrônica é essencial para trazer novidades e reoxigenar o ecossistema. “Startup é sangue novo, são jovens com coragem, pique, boas ideias e que não têm medo de correr risco. Os gestores das empresas tradicionais normalmente são mais tímidos para operações de risco, pois têm medo de perder o patrimônio construído. É por isso que esse movimento de se associar às startups é importante”, destaca.

De acordo com o presidente, o Vale da Eletrônica é formado por 153 indústrias, que em 2016 faturaram R$ 3,2 bilhões. Ele explica que o ano passado foi um período difícil para as empresas por causa da economia, mas garante que as expectativas para 2017 são melhores. A meta é crescer entre 15% e 20% em relação ao ano passado.

O número de startups existentes na cidade ainda não foi contabilizado, mas um dos facilitadores do Hub de Startups do Vale da Eletrônica, Marcos David, acredita que existam pelo menos 50. De acordo com o Sindivel, Santa Rita do Sapucaí é o polo tecnológico de maior densidade da América Latina, com cerca de 40 empreendimentos de base tecnológica para cada 10 mil pessoas. Ao todo, a indústria no município emprega 14.300 pessoas, o que representa 29% do total de empregados na indústria da eletrônica em todo o Estado.


Sinergia e oportunidade de negócios

A Exsto, empresa de equipamentos para o segmento de educação, tem experimentado a sinergia com as startups instaladas na região. O sócio, José Domingos, afirma que, na empresa, as startups são vistas como uma oportunidade de negócio, além de uma inspiração em modelo de gestão. “Santa Rita sempre foi um celeiro de negócios inovadores, mas a cultura que essas startups estão trazendo é diferente. Enquanto a maioria das indústrias aqui surgiram com uma visão de gestão mais tradicional, familiar e conservadora, as startups já nascem com uma perspectiva internacional, com vistas à captação de investimento”, afirma.

O executivo afirma que a Exsto tem aberto suas portas para essas empresas e uma prova disso é o recente investimento realizado na Inova GS, startup sediada no município. De acordo com Domingos, as duas empresas têm sinergia de atuação. A Exsto fabrica equipamentos tecnológicos voltados para a educação profissional em escolas técnicas. Esses equipamentos são usados em sala de aula como simuladores de máquinas reais da indústria. A Inova GS, por sua vez, está desenvolvendo um software que é um simulador gerencial. A solução funciona como um jogo que vai simular e, ao mesmo tempo, ensinar sobre decisões gerenciais.

“Eles têm uma competência que nós não temos e que tem tudo a ver com o nosso mercado. Além disso, a startup estava em busca de investimento, então enxergamos como oportunidade de negócio”, afirma. Ele frisa que ter essas empresas inovadoras por perto é vantajoso para a indústria, que tem uma logística mais engessada e, por isso, se expõe menos aos riscos. “As startups exploram novas oportunidades o tempo todo, enquanto que para a indústria isso é mais complicado, pois a curva de aprendizado é mais demorada. A estrutura da empresa tradicional muitas vezes a impede de ficar testando e arriscar tanto, por isso a parceria com as startups é importante”, analisa.


Troca de conhecimento dá resultado

Na empresa de telecomunicações Leucotron, sediada em Santa Rita do Sapucaí, a troca de expertise com startups é tão positiva, que fica difícil responder quem aprendeu ou ensinou mais nessa troca. O head de Marketing e Inovação da empresa, Carlos Henrique Vilela, afirma que o movimento é espontâneo e que as startups acabam chegando na indústria e bagunçando, de uma forma muito positiva, a forma de enxergar o negócio. “A contribuição que esses empreendedores trazem não é algo muito concreto, que se possa comprovar com números. Mais do que qualquer outra coisa, eles trazem transformação de cultura, pois têm um modelo de negócio baseado em entender o problema real do mercado e desenvolver uma solução”, afirma.

O executivo afirma que a empresa tem feito um trabalho de pré-incubação de projetos internos e, recentemente, fez um “estágio” no Seed, programa de aceleração de startups do Estado. Entre os aprendizados que a indústria coleciona dessa interação está o conceito de validação de produto e de pivotagem, que é quando o negócio abandona uma abordagem ou foco de forma estratégica. “Também temos aprendido muito sobre design thinking e sobre modelos de negócios mais eficazes. Um exemplo disso é a venda de software: a indústria está acostumada a vender licença, enquanto que as startups têm colhido bons resultados com o modelo de assinatura”, diz.

Por outro lado, ele também destaca que a indústria tem contribuído de forma significativa com as startups. A mentoria é um dos principais benefícios que os empreendedores podem encontrar na indústria, tendo em vista que os gestores que estão lá têm uma visão mais prática do mercado. Outra importante contribuição é a estrutura. Segundo o executivo, muitas indústrias do município já têm disponibilizado seu maquinário para a produção de protótipos desenvolvidos por startups.

A startup Spark Telecom, que desenvolve solução de vídeo analítico, é uma das empresas parceiras da Leucotron. Localizada em Santa Rita do Sapucaí, ela tem apenas seis meses de operação mas já conquistou clientes importantes como as prefeituras de Conselheiro Lafaiete, na região Central do Estado, e de Valinhos, no interior de São Paulo. A solução desenvolvida pela startup possibilita a coleta de informações estratégicas por meio das imagens de câmeras.


Hub na região é formalizado para representar as empresas

As startups de Santa Rita do Sapucaí ganharam tanta força nos últimos anos, que os empreendedores decidiram oficializar a criação do Hub de Startups do Vale da Eletrônica. O facilitador do hub, Marcos David, afirma que o ecossistema é apenas a formalização de um movimento que já existia, mas destaca que o nome é importante para trazer mais representatividade para as empresas. “No Vale da Eletrônica se fala muito das indústrias e as startups da cidade não tinham uma marca delas. O hub nasce para potencializar todas as ações que já são desenvolvidas na cidade, fortalecendo a conexão das startups de Santa Rita com os demais atores do ecossistema espalhados pelo Estado”, diz.

Segundo ele, o hub vai atuar principalmente na aproximação dos empreendedores com fundos de investimento, programas de aceleração e outros eventos de inovação. Além disso, a proposta é ter também um braço educacional, colocando à disposição das startups mentores e palestrantes que contribuam com temas diferenciados. Até o momento o hub realizou dois eventos no espaço do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), mas segundo David, os encontros podem acontecer em qualquer lugar. Ele afirma que o mapeamento das startups na cidade é uma das metas de curto prazo do hub. A estimativa é que existam, pelo menos, 50 empresas nessa categoria.

Para o empreendedor, as startups trazem um diferencial, que é a agilidade. Ele destaca que essas empresas já nascem com modelos disruptivos e adotam inovações o tempo todo, característica que as indústrias não têm por causa do formato marcado por processos engessados. “A conexão entre as duas partes é muito positiva porque as indústrias passam a enxergar as startups como solução de problemas. Por outro lado, as startups que já nascem com parceria com a indústria têm muito mais potencial no mercado”, analisa.