O segredo já não é a alma do negócio

A Startup Lisboa tem três anos de vida e desde o início muitas têm sido as pessoas que nos batem à porta à procura de ajuda para lançar o seu negócio. Normalmente explicamos o nosso modelo de incubação e informamos que os projectos que apoiamos são seleccionados através de candidatura. Acontece muitas vezes as pessoas dizerem-nos que têm uma ideia, mas não podem dizer qual é pois têm medo que a roubem. Isto é verídico.

Este mindset, embora num contexto diferente, ainda está muito presente nos empresários portugueses, mesmo nos mais jovens. Há muito a ideia de que o produto tem de ser desenvolvido em sigilo e aperfeiçoado ao máximo antes de ser lançado cá para fora.

Numa época em que assistimos à vivência da primeira geração global, em que os modelos de economia digital mais disruptivos e escaláveis têm a sua génese e crescimento no âmago da economia de partilha e de consumo colaborativo, essa atitude deixou de fazer sentido.

Quanto mais cedo o promotor de uma ideia começar a falar do seu negócio com clientes, parceiros, empresários, melhor será a execução da ideia, melhor será o seu modelo de negócio e maior a probabilidade de sucesso. Um plano de negócios muito perfeito, cheio de tabelas e estimativas, que na maioria das vezes fica fechado numa gaveta, de nada vale se não for um instrumento de trabalho, de teste e de validação do negócio em permanente adaptação ao mercado.

Nota-se também ainda por parte de alguns empresários portugueses pouca apetência para a partilha de casos de sucesso e de insucesso, para o envolvimento na comunidade de empreendedores que estão a dar os primeiros passos. A tradição anglo-saxónica é o oposto. Nos EUA, por exemplo, o mentoring é muito valorizado e é um dos factores críticos e de distinção no tecido empresarial e no espírito empreendedor que tantas startups de sucesso têm lançado para o mundo. Na Europa, e em particular em Portugal, partilhar casos de sucesso é visto como gabarolice e os casos de insucesso como falhanço.
Tecnologia, consciência de comunidade, maior flexibilidade na gestão financeira, capacidade de correr riscos, partilha de conhecimento, inovação são o que agora define os empresários e as empresas do futuro, porque as empresas do futuro têm cada vez mais como clientes uma geração que decide o que consome com base na partilha, no que está referenciado por outros, no que é viral, na disseminação de tendências.

Quem se fechar no seu escritório a desenvolver uma ideia de negócio sem noção de como os seus clientes usam (e querem usar) o seu produto corre o risco de chegar ao mercado e ter desperdiçado tempo e dinheiro que deviam ser aplicados no terreno.

Na Startup Lisboa defendemos a cultura da partilha, porque criar um negócio é difícil e pode ser muito solitário. Para além de todo o mentoring, investidores e parcerias estratégicas que facilitamos aos empreendedores, a nossa motivação maior é criarmos um ambiente de incubação que promova a partilha de conhecimentos, sucessos, erros, soluções e criação de sinergias. Aquilo que queremos são empresas viradas para fora, para o mercado, para o que designamos genericamente de ecossistema — clientes, investidores, parceiros.

E esta é a altura para o fazer. Há três anos não havia um ecossistema. Começámos finalmente a ter capital de risco — graças à Portugal Ventures, à Faber Ventures e à Caixa Capital-, business angels, incubadoras, programas de aceleração, startups que começam a suceder e a escalar, empresários e profissionais interessados em ser mentores (na Startup Lisboa temos mais de 80), investidores estrangeiros que começam a incluir Lisboa no seus tours.

Esta é a altura em Portugal para o empreendedor desde o primeiro momento do seu negócio (ideia) contar a sua história, ir ter com o seu cliente, falar com empresários do seu sector, sondar investidores, incorporar esses feedbacks na criação da sua empresa. O segredo só é a alma do negócio se for partilhado com quem sabe, quem compra e quem pode ajudar.

João Vasconcelos

Director Executivo da Startup Lisboa

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