A morte de Zorro

Conto

Sofia olhou para corpo peludo e inerte de seu cachorro. O focinho estava entreaberto e uma poça de sangue banhava o piso de ardosia. A garota de corpo pequeno e esguio cutucou com seu dedinho magro, a cabeça rígida e estática do bichano. Os olhos do animal estavam arregalados e petrificados. Sofia deitou a cabeça no chão frio e ficou olhando para uma película gosmenta que cobria os olhos de seu cão. Era uma película fina, cinza, como se fosse uma cortina ocultando a claridade de uma janela.

A mãe de Sofia, que acabara de acordar, abriu a porta da cozinha e deu de cara com a filha, estatelada no chão, encarando o cadáver do mascote da família. Não pensou duas vezes e puxou Sofia pelos braços, afagou com carinho os cabelos da pequena, e disse com a voz embasbacada:

- O Zorro não vai mais acordar, Sofi. Ele foi para o céu.

Sofia abraçou a mãe e olhou pela última vez o seu amigo. Depois, correu desajeitada para dentro de casa e subiu as escadas, com suas perninhas magras e molengas, até o seu quarto. Plantada em frente à janela, sentia-se estranha. Parecia que um vendaval passava pelo seu corpo e lhe arrancava a roupa, a pele, a carne… Sofia queria gritar. O coração socava o peito e pedia para sair. Era estranho… Muito estranho! Nunca sentira algo parecido. Nem mesmo quando levara pontos no joelho e quando sua boneca favorita caíra no riacho. A dor era diferente. Parecia que estava prestes a morrer, igual a Zorro. E para ajudar, o céu parecia fazer pirraça exibindo sua cor azul, vigorosa e o astro-rei torturava qualquer olho que se dirigi-se a ele…

Sofia se jogou na cadeira, de frente para sua escrivaninha, e começou a chorar… soluçar… tremer: “Ai, que dor mais estranha!”- pensava. Apesar de seu corpo estar descontrolado e da maldita dor pungente e sólida, a criança parecia que, ao mesmo tempo, levava tudo com certa razão. Não conseguia controlar o corpo, era verdade, porém, uma voz interior questionava incessantemente o porquê de tudo aquilo. E quanto mais pensava, mais água rolava rio abaixo.

No dia anterior, Sofia havia brincado com Zorro, mas esquecera de lhe dar boa noite. E essa era a segunda dor que subia borbulhante pela sua garganta. Era uma tortura curiosa, pois vinha carregada de vergonha e de arrependimento. Sofia permaneceu na cadeira, com o rosto entre as mãos, e pensou em voltar por alguns instantes para dar tchau e boa noite ao seu cãozinho. Mas, no fundo, sabia que isso não seria possível… Zorro nunca mais voltaria! E achou uma grande estupidez a nossa cabeça pensar em algo que jamais poderia acontecer…

Ao lado de sua cama, havia um criado-mudo, onde um porta — retrato exibia a foto do cachorro, no parque. Sofia odiou a imagem por um momento: “Por que tiramos fotos? Qual a finalidade?”- pensava. Parecia uma maneira fracassada de congelar o tempo. A pequena ficou revoltada e não quis mais olhar para o retrato, tanto que o escondeu debaixo da cama. Seu desejo era esquecer Zorro para sempre…

A mãe de Sofia, abriu a porta do quarto, sorrateiramente, e deixou alguns pincéis e tintas novas para a filha. A garota geralmente ficava muito feliz quando ganhava novos materiais para realizar suas pinturas, mas, naquele dia, era como se tudo fosse uma grande besteira… Porém, de repente, uma vontade irrefreável e vívida surgiu dentro de Sofia: a vontade de pintar algo que clamava para sair de seu interior.

Sofia preparou uma paleta de cores e banhou o pincel de cerda numa tinta vermelha. Cada traço, era como se uma parte de seu corpo se transportasse para a tela branca. Não conseguiria exprimir o que sentia com palavras, jamais… Mas ali, com o pincel nas mãos, era como se tudo fosse esclarecido. Sofia confessava-se à tela branca e, de certo modo, se redimia consigo mesma.

Depois de criar a sua pintura, aliás — a sua melhor obra — a pequena deitou na cama, com os dedos sujos de tinta à óleo e com o peito purificado. Olhava fixamente para a pintura com os olhinhos inchados, porém com um sorriso tímido nos lábios. A mãe de Sofia voltou ao quarto e quis entender o que ela havia criado:

- Hum, o que significa tudo isso, Sofi? — disse em um tom sereno e maternal carregado de certa preocupação.

Sofia levantou da cama, pegou a tela nas mãos e disse:

- Este aqui é o Zorro, mamãe. Ele está no céu, me olhando… E essa aqui sou eu com a minha caixa mágica nas mãos, tá vendo? Eu coloquei várias coisas lá dentro que, um dia, vão me ajudar a enganar uma pessoa…

- Que pessoa, querida? — disse a mãe levantando uma sobrancelha.

- Tá vendo essa máscara feia e cruel olhando pra gente?

- Sim, e quem é esse?

- O tempo.