Flores em nossos cabelos e almas

Um conto sobre mulheres

Roberta ajeitou o cabelo. Colocou algumas flores entre os fios rebeldes, perto da orelha, pois achava que o dia era sereno e que a paz que sentia suplicava por algo singelo e amoroso.

Roberta não se preocupava muito com suas roupas. Todas eram muito simples, pois gostava de se apegar aos detalhes, aos contornos. Então, usava fitas, bandanas, flores, cores… Possuía muitos acessórios que enfeitavam o seu corpo e davam vida para seus figurinos.

O dia interagia com seu estado de espírito. O sol estava brilhoso, sorridente. Ardia pouco e um vento moderado passava distribuindo tapinhas nas costas. Roberta desceu a rua de sua casa e caminhou lentamente durante dez minutos até o ponto de ônibus. Nesse caminho seu estado emocional mudaria tanto, que depois olharia para o céu com os olhos apertados, indignados, pelo dia continuar ensolarado e pelo maldito vento continuar assobiando...

Um homem alto, com uma barriga saliente e dentes perolados, estava parado em frente a própria casa, lavando a calçada. Roberta passou por ali e disse “Boa tarde!” com um sorriso sincero. O homem desligou a mangueira e caminhou até Roberta. Ele andava com certa malemolência, segurando as calças largas e mordia os lábios cheios de uma saliva branca e grossa.

Roberta segurou a bolsa contra o corpo e deu alguns passos para trás, o homem chegou até seu ouvido e disse:

— Quero você pra mim, gostosinha!

Roberta engoliu em seco, olhou para o chão, e depois para homem. Quando pensou em dizer algo, talvez um “nojento” ou algo mais pesado, olhou sobre o ombro do maldito e viu, ao fundo, uma mulher segurando um bebê. O olhar dela era desconcertado, o rosto transpirava e os lábios estavam murchos e fatigados. Parecia muito triste e com vergonha. O homem piscou para Roberta, virou-se e disse para a mulher com o bebê:

— Vai para dentro, Robertinha. Já estou indo…

Roberta ficou tão assustada, que antes mesmo do homem voltar a olhar para ela, já tinha descido a rua correndo. No caminho, suas flores caíram pelo chão e passava a mão na própria orelha com nojo, pois ainda sentia aquele sussurro maldito ecoando em seus tímpanos. Quando chegou até o ponto, colocou as mãos no rosto e pensou que deveria ter ficado e contado para a outra Roberta. Sentiu o coração apertado e um ódio correndo pelas veias. Sabia que não era a primeira vez que algum homem tinha sido nojento com ela, mas sentia um ódio em dobro por ter visto a outra mulher naquela situação. Era como se tivesse levado dois tiros!

O dia teve um belo início, pena que não durou muito… As flores que comprara eram tão belas, tão perfumadas, mas não puderam enfeitar por muito tempo os seus cabelos. A cor carmin de seus lábios, que deixava seu sorriso mais amplo e intenso, já estava sem vida... Roberta odiou tudo por um momento.

Olhou com raiva para o céu e exigiu que chovesse; que trovoasse! Nada mais naquele dia, podia ser bonito. Subiu no ônibus, sentou no banco perto da janela e ficou pensando e pensando... Um homem tinha estragado o seu dia e estragava a vida de outra mulher há anos, provavelmente. Um homem vencido igual àquele, existia de montes na sociedade, e sabia que ela e sua xará enfrentariam pelo resto da vida situações desrespeitosas como aquela.

No outro dia, Roberta comprou mais flores, colocou no cabelo e levou duas consigo. Passou pela casa do infeliz e as deixou no portão, sorrateiramente. Roberta imaginou sua xará com as margaridas enfeitando o cabelo, e seu bebê feliz e sorridente no colo. Desejava que as flores pudessem levar algum conforto ao coração daquela irmã. Pois era um símbolo de sensibilidade e luta de mulher para mulher.