Candelária

Eu lembro daquele dia de janeiro com bastante frequência. Muito mais do que eu gostaria, na verdade.
Ainda consigo recordar perfeitamente a sensação febril da minha pele sob seu toque apreensivo. Nenhum de nós dois estava acreditando naquele momento e no que estávamos vivendo ali, juntos. Foi lá naquele banco perto da Candelária onde nos beijamos durante horas a fio, minha risada se misturando com a sua, compartilhando ainda mais fatos sobre as vidas um do outro, que já conhecíamos quase de cor. O leve constrangimento com os olhares curiosos dos pedestres ao se deparar com dois amantes embriagados um com o outro. Eu envolvendo seus ombros com meus braços, com as mãos na sua nuca e seu nariz na curva do meu pescoço. Lembra que você comentou que meu cheiro havia ficado em você? É, eu lembro disso.
Lembro que estava usando uma das minhas infinitas blusas pretas e uma calça jeans justa, e você gostou de como eu estava. Os cachos selvagens do meu cabelo insistiam em atrapalhar nossos beijos. Nós rimos tanto daquilo…
Lembro que você me chamou de “sua mulher” naquele dia, mesmo nós dois sabendo que aquilo era e sempre seria impossível.
Agora, sempre que passo pela Candelária, eu lembro de você.
