El (mio) latino en mí

“Me lembro bem de, no ensino médio, estar numa aula de literatura sobre formação da língua portuguesa, descendências latinas e por aí vai. Talvez tenha sido a única aula em que realmente aprendi algo. Posso dizer, ainda hoje e com extrema precisão, a ordem em que os idiomas latinos surgiram. Mas este fato não é o mais importante da história. Nesse mesmo dia, nessa mesma data, aprendi o real significado de uma palavra importante: Recordar. Recordar vem de re-cord e significa literalmente “passar novamente pelo coração”. Viver novamente um momento e deixar que o coração sinta as mesmas sensações e sentimentos novamente. Desde então este tem sido o norte da minha vida. Gosto de palavras. Gosto de notar quantas vezes as usamos sem termos ideia de seus significados exatos. Se tivéssemos, nossas cartas de amor, nossos livros, nossas explicações e nossos pensamentos seriam cada vez mais plenos, intensos. Isso me intriga desde que o ouvi dizer que “faríamos uma memória”. Peço licença (mesmo que um tanto poética) e perdão para/por corrigí-lo: Não criamos uma memória, e sim uma recordação. A memória é frágil, fácil de ser apagada, incompleta e geralmente surge nos momentos de ociosidade mental, como um doce Déjà vu; já a recordação nos preenche, nos invade, fica em nós. O momento é uma semente e a recordação é uma árvore que cresce sozinha: em cada momento em que ela vem, ela mesma se encarrega de se regar, se alimentar. É plena porque vem de todos os sentidos, juntos ou separados. Sinto teu cheiro em minha blusa, misturado ao cheiro do mar, ao das ruas do meu Rio e ao cheiro da memória. Por um instante fecho os olhos e posso sentir — recordar — novamente a força da tua mão segurando a minha ou a minha cintura, a intensidade do teu olhar ou o simples fato de espantar um pombo. Quase caio novamente ao tropeçar na madeira do píer. Me equilibro novamente nas pedras do Paço. Xingo a música insuportável. Pinto novamente com os olhos a caravela. Acendo novamente o fogo da pira. E te recordo. Pense no Atlântico. Pense no porto de Buenos Aires como no porto do Rio. Leia Machado. Ande novamente pelo Brasil Imperial e veja a república nascer. Almoce com Getúlio. Procure novamente as moedas argentinas. E recorda tudo novamente.”