Tédio e TOC

Tédio. É impressionante o como ele é capaz de diluir meus pensamentos a pó.

Preto. Branco. Cinza. Cor? Bege. Azul. Escuro, óbvio. Esses são para ousar. Respiro fundo. Está tudo sob controle. O cheiro é bom, e seguro o ar com força. Laranja, será? Eu amo cheiro de laranja. Erva doce. Manhãs chuvosas na cama. Café quente. Afundo meu rosto no abraço. Um gato. Preto. Minha companhia sorridente ideal.

Pulo para a realidade. Pisco, três vezes para ter certeza de que não é um sonho. Preto. Branco. Cinza. Alinhamento. Começo imediatamente a alinhar. As canetas maiores, as canetas menores. O cacto simpático, lembrando que não sou o único ser vivo no lugar. Barulho. Teclas. Clic. Clic. Clic. Rápido. Mais rápido. As palavras vão surgindo, mas não sei se sei falar. Obstante. Obtuso. Obstinadamente. Excelência, é o que peço. Ora, pois, sim, por que não? Minha pronúncia não é tão ruim.

Respiro fundo. Mofo. Poeira. Ainda bem que não tenho rinite. O céu azul lá fora. Imagine, voar de balão. Se fosse voar de balão, seria em um dia assim. Um piquenique no parque. Cachorro latindo, bola de tênis voando. Azul. Bege. Céu azul. Claro, óbvio. É redundante, eu sei. Obtuso, embora seja eu, obstinada.

Me recordo da escola. Más lembranças. O que o controle pode fazer por alguém? Alinhar. Listar. Listo tudo. Tenho todas as minhas roupas. Por ordem alfabética, óbvio. Preto. Branco. Cinza. Calma. Calma. Calma. Mais devagar. Devagar. Está tudo aqui na minha cabeça, o que existe e o que nunca existiu. Mas vai existir, alguém duvida? Tudo faz algum sentido, se não pra você, pra alguém faz. Talvez pra mim faça. Eu vi dois gatos no almoço. Um preto. Outro branco. Com listras cinzas. E olhos azuis. Brilhantes, óbvio.

Os gatos vieram até mim. Sorridentes. É um dia bonito, mas estou me sentindo um pouco presa. Portas. Janelas. Telas. Do computador. Não de segurança. Mas deveria, pode ser perigoso. Não é alto. É seguro. Seguro, sei. Eu poderia fazer isso o dia inteiro. Esse dia me lembra outro. Quando eu plantei um eucalipto.

Você sabia que um eucalipto demora sete anos para não crescer mais? Eu não sei se é verdade, não procurei no Google. Mas meu avô falou em um dia igual, quando eu plantei. Eu tinha dez anos. Fiquei pensando. Nossa dez anos, faz tempo. Não sou boa em matemática. Por isso fiz direito. Fiquei surpresa. Eu ia ter dezessete anos. É uma palavra longa, dezessete, seria melhor se tivesse dezessete letras. Me pareceu tão longe na época. Nove anos. Preto. Branco. Cinza. Passou o tempo já. Verde. As folhas do Eucalipto. Clorofila e tal.

Faz sentido, faz todo ele. O sentido. Eu me perdi nas palavras em um instante, pisco, pisco, pisco. Podia tomar café. Me lembro de um vídeo engraçado. Eu tenho que ir no banco. Meu cartão não chegou, como eles não fazem essas coisas na hora? Me falaram pra não deixar a mente solta assim. É a oficina do diabo, como minha mãe fala.

Diabo é com letra maiúscula? Agora foi, porque era a primeira palavra, mas acho que não. Não é nome né. E se for, é nome de coisa ruim, então não precisa. Tem que separar o bom do mal. Separar, e alinhar. Separar por cor. Preto. Branco. Cinza. Ordem alfabética. Me falaram que isso era doença, mas doença faz mal. E isso me faz feliz. Respira. Respira. Respira. Ansiedade. É por causa do banco. Podia ter chego o cartão. Podia ter café. Pra tomar no parque. Abraçada com meu gato, que é preto. Branco e cinza é o outro. O dos olhos azuis.

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